Abram alas: 3 mulheres importantes para o carnaval brasileiro

Glitter, fantasia, bloco de rua, escola de samba, frevo, axé, bonecos de Olinda… O Carnaval, uma das principais manifestações culturais do país, é plural e comemorado de diferentes maneiras de acordo com o estado.

No eixo Rio-São Paulo a folia é sinônimo de blocos de rua que tocam de axé anos 2000 a funk e, principalmente, escolas de samba, que movimentam milhares de reais todos os anos com desfiles realizados nos sambódromos.

Mas nem sempre foi assim, já que o carnaval é considerado um festa popular, que nasceu com o samba e as marchinhas de bloquinhos de rua, onde a festa é democrática e aberta a todas, todos e todes.

Você sabia que foi uma mulher que escreveu a primeira marchinha de carnaval brasileira? E que a primeira música de samba foi escrita na casa de uma senhora que também cantava Partido Alto e permitia reuniões de sambista em uma época que o gênero musical era marginalizado?

O Guia Maria Firmina separou histórias de três mulheres que revolucionaram o samba, a música e o carnaval!

Foto: Divulgação do Acervo da Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata
Tia Ciata

Considerada matriarca do samba, a mãe de santo, partideira (cantora de Partido Alto, um estilo de samba que surgiu no início do século XX) nasceu em 1854 no Recôncavo Baiano e mudou-se para o Rio de Janeiro após a abolição da escravatura.

Sua casa era ponto de encontro para festas que cultuavam tanto orixás quanto santos católicos como São Cosme e Damião e Nossa Senhora da Conceição. Nas festas destacavam-se as rodas de partido alto. Marcavam presença nesses encontros nomes como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô, João da Baiana, Mauro de Almeida, entre outros. Ao lado daqueles que seriam vistos como grandes nomes do samba, Tia Ciata comandava o partido alto e era a melhor dançarina do miudinho, uma forma de dançar com os pés bem juntos.

Tia Ciata certamente se surpreenderia com a proporção que o samba, que ela trouxe do Recôncavo com os migrantes baianos, ganhou.  

Foto: Divulgação
Chiquinha Gonzaga

Compositora das primeiras músicas populares brasileiras, em uma época na qual apenas ritmos europeus eram valorizados, Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 1847, no Rio de Janeiro, e era filha de um rico militar.

Poucos musicistas foram tão produtivos quanto ela: compositora desde os 11 anos, Chiquinha tem mais de duas mil músicas entre vários estilos musicais, como choro, polca, samba e até tango. Apesar do currículo, a compositora sofreu por ser separada do marido, com quem foi obrigada a casar-se aos 13 anos, e por seu espírito livre que não se rendia as imposições de gênero da época.

A primeira marchinha de carnaval da história foi feita por ela, a pedido do Cordão Carnavalesco Rosa de Rouro para o carnaval de 1899. Ó Abre Alas é cantada até hoje e muitos desconhecem a carga histórica da marchinha de carnaval!

Chiquinha viveu em uma época em que a música brasileira era desprezada pela elite, que só gostava do que vinha da Europa e abominava qualquer manifestação cultural que celebrasse a brasilidade. A compositora foi fundamental para a aceitação da música brasileira, introduzindo instrumentos populares, como o violão, nas apresentações em grande teatros.

Mais que compositora e maestrina (também a primeira no Brasil!), Chiquinha militava a favor da abolição da escravatura e da proclamação da República. Ela chegou até a comprar a alforria de um escravo, o músico José Flauta.

Foto: Divulgação
Dona Ivone Lara

Primeira mulher a se destacar como compositora de samba-enredo, Dona Ivone Lara, nascida em 1921, abriu caminho para que outras mulheres pudessem participar da roda. No ambiente predominantemente machista das escolas na década de 1940, se tornou a primeira mulher na história do samba a se consagrar como cantora e compositora.

Seu primeiro contato com a música foi com Lucília Guimarães Villa-Lobos, a mulher do maestro Heitor Villa-Lobos, professora do internato do colégio onde Yvonne estudava. A mãe, Emerentina, cantava no racnho carnavalesco Flor do Abacate, e o pai, além de de mecânico de bicicleta, era violonista do Bloco dos Africanos.

Na infância ficou orfã e, após sair do internato, foi morar com seu tio Dionísio, Dionísio Bento da Silva, que tocava violão de sete cordas e fazia parte de grupo de chorões que reunia Pixinguinha e Donga, entre outros. Com o tio, aprendeu a tocar cavaquinho.

Aos 24 anos começa a participar da Escola de Samba Prazer da Serrinha, mesma época em que começou a compor sambas e partidos-altos que eram apresentados para outros sambistas pelo primo Fuleiro como se fossem dele, pois as chances de aceitarem era maior.

Casou-se com o presidente da escola e em 1947 compôs o samba-enredo “Nasci para sofrer”, com o qual a escola desfilou. A discordância com os integrantes da agremiação da escola acabou originando a Império Serrano, escola na qual Ivone faria sua fama.

“Os cinco bailes tradicionais da história do Rio”, samba-enredo de 1965 composto por ela, Silas de Oliveira e Bacalhau, foi a estreia oficial de Ivone na Ala dos Compositores da Império Serrano, e o primeiro samba-enredo de uma escola de elite do carnaval carioca a ser assinado por uma mulher.

Dona Ivone lançou mais de dez discos e apesar de nunca ter sido um sucesso de vendas, tem canções gravadas por ícones da MPB como Gal Costa, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Sonho meu”, por exemplo, é de sua autoria e uma de suas composições mais famosas.