Amanda Lyra, o Quarto 19 e o aprisionamento da mulher

Uma publicitária, moradora de Londres, casada com um jornalista, com quem teve três filhos. Após anos sem trabalhar fora de casa, dedicada à criação das crianças,  ela não vê a hora do filho caçula entrar na escola para ter algum tempo para si. Essa  história, realidade de milhares de mulheres de classe média, é enredo de Quarto 19, espetáculo idealizado e encenado pela atriz Amanda Lyra.

A peça é construída a partir do conto Quarto 19, escrito por Doris Lessing em 1963. A autora venceu o Nobel de Literatura em 2007, sendo a 11ª mulher a ganhar o prêmio. A atriz Amanda Lyra leu pela primeira vez a história em 2009, e desde então quis transformar em uma peça de teatro o conto que tanto a instigou. Anos depois, chamou Leonardo Moreira para dirigir o trabalho e, entre idas e vindas, a montagem estreou em 2017. Após passar por alguns espaços de São Paulo, o espetáculo reestreia na Oficina Cultural Oswald de Andrade e segue em cartaz até 10 de março.

Foto: Divulgação

O monólogo com cenário simples começa de forma leve, mas rapidamente parte para questões profundas: as estruturas que moldam os comportamentos das mulheres na sociedade, o cansaço gerado pela vida familiar e a necessidade por momentos de solidão, que preservam a individualidade, são alguns dos temas tabus abordados por Amanda em cena. Quarto 19 dialoga também com um dos ensaios mais famosos da escritora Virginia Woolf, Um Teto Todo Seu (1929), onde ela defende que a liberdade de uma mulher só pode ser conquistadas quando ela tem acesso a um quarto privado, com porta e cadeado, uma janela com vista e uma renda que proporcione tranquilidade e independência.

“As pessoas ficam muito mexidas, algumas assistem e voltam com mãe, tias, marido… É uma peça que costuma gerar DR entre os casais por refletir e questionar assuntos importantes, que afetam a maioria dos lares”

 O Guia Maria Firmina conversou com Amanda Lyra sobre o trabalho que fez com que ela fosse indicada na categoria de Melhor Atriz no Prêmio Shell 2017.

O que despertou sua vontade de transformar o conto de Doris Lessing para o teatro? Como foi o processo de criação da peça?
A primeira vez que eu li o conto foi em 2009. Fiquei muito impressionada  com ele e pelo modo como ela construiu a narrativa, não só pela história em si, e desde então fiquei com vontade de transpor isso para o palco de alguma maneira. Em 2011 chamei o Leonardo para dirigir, e levou sete anos para isso finalmente sair do papel. Eu e o Léo trabalhamos totalmente em cima do texto, a todo momento era sempre a pergunta “o que o texto pede?” porque o conto já é bem completo e não queríamos colocar coisas em cima disso. Até tivemos algumas ideias mirabolantes, mas depois limpamos e deixamos somente o essencial, que é essa mulher em cena contando a história.

Precisei retraduzir todo o texto porque a versão que tinha em português era muito antiga, e durante esse processo já adaptei muita coisa: tirei dados da realidade londrina, deixando o vocabulário mais atual, deixei a construção das falas mais próximas do cotidiano, mas sempre mantendo o encadeamento de ideias da Doris.

Ao longo dos anos nós amadurecemos muitas ideias e amadurecemos também. No meio do processo eu tive um filho, então isso também foi importante para olhar para mulher do conto. Trabalho bastante em como entrar em cena e contar a história da maneira menos construída possível, uma troca simples e direta com o público para que a narrativa flua como precisa fluir.

Foto: Cris Lyra

O texto de Lessing foi publicado pela primeira vez em 1963. Acredita que essa narrativa ainda faça sentido hoje para a maioria das mulheres, seja no Brasil, ou em outros países?
Acho que faz todo o sentido hoje em dia, infelizmente, por que significa que ainda vivemos esse embate e mostra o quanto não evoluímos em cima dessas questões, ainda que as mulheres estejam mais inseridas no mercado de trabalho, por exemplo.

Essa mulher do conto já era uma mulher que trabalhava fora em uma agência de publicidade, inclusive. Estamos falando de um casal cosmopolita que morava em Londres, bem informados, um jornalista e uma publicitária… Isso é muito próximo da nossa realidade, somos nós, cheios de informação, cultos. Dá pra notar, com a história, que mesmo com tanta informação ainda caímos nessa cilada, no aprisionamento da estrutura do casamento burguês, dos filhos, da mulher.

A peça traz toda essa questão identitária de ser mãe, trabalhar fora, ser esposa, cuidar da casa. Eu me vejo nessa situação em vários momentos e todas as pessoas que assistem têm a mesma reação, e é triste notar o quanto ainda estamos no mesmo lugar. Apesar de termos conquistado muitas coisas desde 1963, essa questão ainda é muito pertinente.

O artista tem essa função de desestabilizar e questionar as coisas, não só no teatro como na vida

O trabalho estreou no Sesc Pinheiros ano passado. É a primeira vez que vocês encenam a peça após a estreia ou já passaram por outros espaços?
Depois que estreamos  fizemos uma temporada em junho no Núcleo Experimental, uma apresentação no Itaú Cultural e algumas apresentações em Sescs do interior. Essa é a terceira temporada em São Paulo, e depois temos algumas apresentações marcadas no interior ao longo do semestre.

Qual a recepção do público ao trabalho?
É muito positiva. Acho que é uma peça que fala diretamente com as pessoas, com um apelo maior para as mulheres, é claro, mas acho que para além da questão da mulher é uma questão humana. O quanto somos aprisionados nos papéis sociais de uma maneira geral, tanto mulheres quanto homens, e como isso soterra nossas identidades. Mesmo com um olhar crítica, muitas vezes acabamos caindo na armadilha dessa estrutura maior que não conseguimos nos livrar.

Foto: Cris Lyra

Acredita que a arte, principalmente o teatro, tem o papel de questionar e fazer as pessoas refletirem sobre coisas que talvez elas nunca pensariam?
Acredito que a arte tenha a função de questionar padrões já estabelecidos. Não necessariamente isso tem que ser o primeiro objetivo, por que corremos o risco de entrar num processo de criação muito racional, panfletário e/ou didático. Às vezes o processo pode partir de uma intuição, uma sensação abstrata, e acho que arte é isso também. O teatro serve para desestabilizar de alguma maneira, seja com as pessoas se identificando, seja sentindo repulsa, incômodo.

Além disso, existe o teatro de entretenimento, em que você vai lá, se entretém um pouco e vai embora pra casa. Também é possível e não faço nenhum julgamento de valor, são apenas coisas diferentes.

As peças feministas que são encenadas hoje estão dando voz para mulheres artistas se colocarem em lugares que normalmente elas não teriam num mundo que é organizado pelos homens.

Qual a importância de peças com temáticas feministas como essa? Aliás, você acredita que essa peça pode ser considerada uma peça feminista?
A peça pode ser considerada feminista por que sou uma mulher, falando da história de uma mulher e sobre questões que dizem respeito a mulher. Uma coisa que tem muito forte no espetáculo é que ou a mulher aceita aquela condição ou ela é louca, não tem outra possibilidade. Nesse sentido é feminista pois possibilita refletir sobre a criação de outros espaços para a mulher existir e se sentir feliz.

Por outro lado, é uma questão humanista também. A própria Doris Lessing não gostava da chancela de feminista. O primeiro livro que ela lançou, o romance The Golden Notebook (1962), foi considerado um marco para o movimento feminista, mas ela rechaçava essa classificação um pouco por dizer que era humanista.

Acho que essa é uma discussão interessante, né, e acho que só de levantar essa questão significa que essas peças precisam existir. Peças com temáticas feministas precisam existir assim como peças de outras temáticas também precisam, porque teatro serve para refletir e questionar o mundo de uma maneira geral.

Mas, obviamente, as peças feministas que são encenadas hoje estão dando voz para mulheres artistas se colocarem em lugares que normalmente elas não teriam num mundo que é organizado pelos homens. Acho que isso é uma libertação da mulher artista também, se colocar com a própria voz, em cena, com uma autonomia e uma tomada de poder que considero muito importante e necessária.

Foto: Divulgação


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