Da música ao cinema: a versatilidade de Anná

Vamos falar o que há de novo em casa? Anná se descobriu como cantora há 5 anos e desde então vem bancando essa responsabilidade diariamente. A cantora, compositora, percussionista e cineasta faz parte da nova geração da MPB e do samba que vem se desenhando nos últimos anos.

Gente, vamos combinar, a Beyoncé é maravilhosa
Mas vamos cantar o que é de casa
Vamos saudar as caboclas
Cantar raiz da liberdade
E entender o seu país
Trecho de “Daqui”, canção do EP Pesada (2017)

Apesar de ainda não ter percorrido com os próprios pés uma longa estrada na música com seus 23 anos, busca inspiração naqueles que já correram muito antes dela,  valorizando os seus antepassados, principalmente grandes sambistas.

“Cantora de samba”, “feminista”, “gorda”: Anná quer ser muito mais que um rótulo, seja ele qual for. Apesar de trabalhar e transitar por todas essas temáticas, é uma artista que tem muito a dizer e não pode (nem aceita!) ser colocada dentro de uma caixa etiquetada. A prova disso é o seu primeiro EP “Pesada”, lançado em agosto de 2017, com quatro músicas que misturam ritmos e até idiomas. E não para por aí, formada em cinema, o  seu documentário Bambas foi exibido em diversos festivais.

O Guia Maria Firmina conversou com a cantora para tentar mostrar aqui um pouquinho da mistura deliciosa dessa artista.

Imagem: trabalho em conjunto da Casa Dobra a fotografia de Karol Ruiz

Do que fala o documentário “Bambas”?
Bambas é basicamente um relato de amigas minhas, colegas de profissão, sobre a nossa realidade enquanto cantoras de samba e sambistas. No começo a ideia era falar de sambistas como Ivone Lara, mas vi que tinha muita mulher maravilhosa perto de mim, e por que não falar delas? O documentário acabou sendo um relato pessoal dessas mulheres, mas essas vivências individuais refletem o que muita mulher que está por aí fazendo samba passa.

Qual foi a sua motivação para falar sobre esse assunto?
Se você pensar nos grupos de samba ou de pagode que a gente conhece, só tem homem. A partir disso comecei a questionar o porquê, fui pesquisar as mulheres no samba e vi que tinha muita mulher sim! Foi daí que surgiu a vontade de fazer um documentário sobre isso, que acabou sendo o meu TCC da faculdade.

Você acredita que o samba reflete o machismo da sociedade?
Sim! Mas tem várias complexidades aí. Se você for pesquisar onde o samba nasceu, todos os lugares vão indicar o mesmo nome: Tia Ciata. Uma mulher, negra e nordestina, que veio para o Rio de Janeiro e organizou as primeiras rodas de samba, como conhecemos hoje. Os encontros aconteciam na sala da casa dela, em uma época onde qualquer negro visto com um instrumento musical na mão ia preso pela lei de vadiagem.

Tem também a questão do Candomblé, em que a mulher não pode tocar tambor, “não pode pôr a mão no couro” como eles dizem.  A tia Ciata não tocava, ela era quem articulava. E depois, com as escolas de samba, o samba foi perdendo muito essa estrutura matriarcal.

Você interpreta letras de sambas machistas?
Existem milhões de sambas por aí, porque eu vou cantar Emília? Para que eu vou cantar Amélia? Tem tanto samba lindo pra aprender, tanta mulher compositora para tomar o espaço… Eu sinceramente prefiro não cantar, não tem necessidade. Tem uma letra [Sambas de roda e Partido Alto, de Martinho da Vila] que diz: “Se essa mulher fosse minha eu tirava do samba já, já, dava uma surra nela que ela gritava, chega!”. Tem alguma necessidade de cantar essa música?

Você já passou por situações de machismo no samba?
Acontece muito dos caras do grupo não cooperar, parece que somos rivais, a cantora e o grupo. Já cheguei a parar no meio da música porque eu estava lá cantando e os caras da banda comentando coisas do tipo “olha que mina gostosa”.

No filme, as mulheres contam vários relatos de caras que inúmeras vezes se oferecerem para afinar o instrumento, de homens que já chegaram a tirar a baqueta da mão delas por acharem que sabem mais e têm que nos ensinar. É sempre uma conta muito mais cara para a gente.

E como você lida com essas situações?
Eu acho que tem vários jeitos de lidar, mas muitas vezes você não tem como reagir na hora porque tá trabalhando, e se você arma um barraco, fica taxada de barraqueira e nunca mais vai arrumar trabalho. Então às vezes a gente abaixa a cabeça  e pensa: “uma hora essa bagaça ainda vai mudar”.

Você acha que a mulher tem ganhado mais espaço no samba?
Para responder essa pergunta, eu preciso contextualizar uma coisa: o samba que eu frequento é na Vila Madalena, que é, querendo ou não, um samba mais elitizado, mais branco. Nessa bolha em que eu estou, sinto bastante diferença, tem diversos grupos só de mulheres e com essa preocupação. Acho que lá isso já é uma realidade, mas ainda é muito comum, muito mesmo, rodas de samba que só tem homens, e com homens que não estão preocupados com essa questão. E tem também muitas rodas em que as mulheres só ficam no cantinho fazendo coro.

Existem milhões de sambas por aí, porque eu vou cantar Emília ou Amélia?

Você lançou o seu primeiro EP, Pesada, há quase um ano. Conte um pouquinho sobre ele.
Esse EP na verdade não tem samba porque eu não queria o rótulo de cantora apenas de samba. Foi um parto muito gostoso, todos as músicas são autorais, eu não sabia direito que era compositora. Nisso de compor, também entra essa questão de que a mulher tem que ser muito boa para se sobressair, se não vem os caras dizer “nossa mas ela é fraca né?”.

A música Carta à Boa Forma fala de aceitação do próprio corpo, por trás dela existe uma história de autoaceitação?
Eu fiz essa música porque tive bulimia na adolescência. Fiz por conta dessa pressão estética que a gente sofre: engordar às vezes não quer dizer apenas que você não vai caber na calça, quer dizer que o carinha não vai mais te querer, que as pessoas vão te achar feia, que talvez não vão te dar trabalho e que talvez você não faça tanto sucesso quanto a outra que é magra. Comecei a entender como a palavra gorda para muitas pessoas é um xingamento muito pesado, e para mim foi por muito tempo, porque ela vem carregada de muitas consequências.

Como foi fazer o clipe dessa música?
O clipe foi meio que um parto deste assunto para mim, e eu sinto que há uma carência no meio musical de falar sobre isso de maneira direta. Eu fiz essa música com a intenção clara de que precisamos falar disso. Chamei todas as minhas amigas, foram todas que podiam, independentemente do corpo delas, e fizemos o clipe.

Você acha que o feminismo fortalece a mulher na música?
A questão do feminismo muito importante, mas a gente tem que priorizar a música. Acho que hoje estamos fazendo essa inversão de valores na música. Tem muita gente surfando uma onda que é a comercialização do discurso, que é o que o capitalismo faz, transforma tudo em dinheiro. Ele diz que você vai ganhar mais dinheiro se falar de feminismo, daí a pessoa faz uma música sobre isso mas talvez nem saiba o que significa.

O meu disco, por exemplo, tem quatro músicas que falam de coisas diferentes, mas a única coisa que sai nas manchetes é “Feminista faz música…”, porque a gente precisa sempre de uma caixinha, né?! Isso para o artista é muito dolorido porque queremos falar de várias coisas. Em uma das minhas músicas, por exemplo, eu falo de Luis Carlos Ruas, um ambulante que foi espancado na noite de Natal em 2016, enquanto tentava ajudar duas travestis.

No meio de tudo isso, como é tocar em uma bateria formada por mais 300 mulheres, no Ilú Obá de Min?
O Ilú é um oásis, um lugar em que toda essa questão do respeito aos mais velhos e à religião, também presente no samba, é muito forte. Além de ser totalmente subversivo por conta da questão da mulher no candomblé, que não toca tambor, e o Ilú ter apenas mulheres tocando. Elas têm uma profundidade e respaldo enorme, tanto religioso, quanto cultural e de vivência. É um lugar em que a gente se sente abraçada, porque são várias mulheres diversas juntas fazendo um som de valorização à ancestralidade. Falamos que é um oásis porque no cotidiano estamos no deserto, com vários homens, várias opressões, e chega lá no Ilú e pensamos “ahh, que delícia”.

Tem algum projeto futuro?
Eu to trabalhando muito com clipes. Quero fazer um longa do Bambas, porque ainda tem muita mulher e muita coisa para falar, e estou procurando meios de realizar isso. Tem muito lugar que ele ainda tem que passar, muita gente que precisa assistir. O projeto foi aceito em todos os festivais que eu o inscrevi, tem bastante espaço para expandir a nossa fala. Estou com algumas ideias, acho que agora vem um disco de samba, mas vamos ver…

Próximo show
Quando? 17/08, sexta-feira, às 21h30
Onde?  Sesc Avenida Paulista – Avenida Paulista, 119
Quanto? A confirmar