As lentes feministas de Maria Ribeiro

Você consegue definir em uma palavra o que o movimento feminista representa pra você? Essa foi a proposta que a fotógrafa Maria Ribeiro fez a cada mulher fotografada no seu projeto “Nós, madalenas”.

Doze das fotografias feitas por Maria podem ser vistas na exposição Nós, Madalenas: uma palavra pelo feminismo, realizada na Casa Prazerela até 1 de dezembro. Lá podemos ver uma seleção das 100 fotografias do projeto que transformou a vida da fotógrafa que hoje se dedica a mostrar a beleza feminina natural.

Como surgiu a ideia

Formada em audiovisual, Maria Ribeiro trabalhava como assistente em uma agência de publicidade e passou a prestar atenção no modo como era criado o que consideramos padrão estético. “Na verdade o padrão não existe. Fotografei artistas e modelos que participavam das campanhas e depois, quando via o resultado final, percebia que com certeza tinha algo errado naquelas imagens”, conta a fotógrafa.

Foto da modelo Júlia Albuquerque
Modelo: Júlia Albuquerque

Quando começou a entender a criação desse padrão que escraviza mulheres e que faz com que milhões odeiem seus corpos, inclusive a própria fotógrafa na época, começou a esboçar o Nós, Madalenas: uma palavra pelo feminismo. “A partir dessas constatações e de um contato que tive com o feminismo na época, comecei a criar esse projeto. A premissa era que a mulher escolhesse uma palavra que representasse o feminismo na sua vida, na sua realidade pessoal. Depois, a foto seria feita em preto e branco, com a palavra escrita com batom no corpo de cada uma delas. A imagem seria natural, sem Photoshop, mostrando as marcas naturais do corpo – estrias, celulite etc”.

Comecei a fazer com algumas amigas, criei um Tumblr que acabou viralizando e centenas de mulheres ficaram interessadas em participar.

Maria trabalhou paralelamente nesse projeto pessoal durante dois anos. Mais de 500 mulheres queriam participar, mas a fotógrafa definiu 100 modelos com corpos, raça, sexualidade e vivências diversas para encerrar o trabalho. Em 2015, a editora Fonte transformou o tumblr do Nós, Madalenas em um livro que, além das 100 fotografias, trazia um texto em primeira pessoa de cada participante compartilhando sua história pessoal e a relação dela com a palavra escolhida. “Esse trabalho é muito significativo porque além de ser feito com mulheres, por mulheres e para mulheres, tira a mulher do papel de objeto fotografado para um corpo protagonista e com autonomia”.

Foto de Maria Ribeiro
Hoje a fotógrafa Maria Ribeiro dedica-se a mostrar a beleza natural feminina em seus trabalhos

A realização desse projeto mudou completamente a minha trajetória, como mulher, artista e fotógrafa: eu entendi que essa era a temática que iria nortear a minha carreira. Trabalhar para sempre colocar mulheres em lugares de protagonismo

Nós, Madalenas permitiu que Maria Ribeiro voasse e levasse junto seu olhar feminista. Com ele a fotógrafa recebeu da ONU Mulheres o prêmio Ivone Herberts, pela relevância do trabalho em prol das mulheres, e graças a ele pôde participar da produção de um minidocumentário da ONU Mulheres em Nova York (Estados Unidos).

O que a fotógrafa aprendeu com esse projeto? Que o mercado da produção audiovisual não aprende (e muitas vezes nem faz questão de aprender) a retratar as mulheres de uma forma humana. “Toda fotografia que aprendemos na faculdade, nos cursos de moda, publicidade etc., a mulher é sempre um personagem desses ensaios, um objeto. A partir do Nós, madalenas e das vivências que tive em Nova York eu construí um método que é único meu no qual elas não são objeto do meu ensaio, elas são realmente as protagonistas. E isso pra mim é muito significativo porque mexe de uma forma muito profunda na relação que nós temos com o nosso próprio corpo”, explica.

O que? Exposição Nós, Madalenas: uma palavra pelo feminismo
Quando? Até 1/12.
Onde? Casa Prazerela | Rua Rifaina, 80 – Vila Madalena
Quanto? Gratuito