Auritha, a cordelista do povo Tabajara

“Eles nunca me abandonarão, seja na aldeia ou na cidade. Eles não são preconceituosos”. A frase de Auritha sobre seus ancestrais é forte e mostra que a escritora que saiu da Comunidade Tabajara, no estado do Ceará, não perdeu a conexão com suas raízes.

Auritha Tabajara é escritora, contadora de histórias, cordelista e poeta. A autora de 38 anos é apaixonada pela escrita desde os seis, quando aprendeu a ler. “Meu avô tinha um rádio de pilha e todos os dias ouvia pessoas declamando Patativa do Assaré [poeta popular], e eu achava aquelas rimas lindas”, conta. “A partir daí comecei a escrever as histórias da minha avó com rimas, virou uma grande brincadeira que depois passei a encarar como profissão”.

Prestes a lançar um cordel autobiográfico, Auritha tem dois livros publicados. Magistério Indígena em versos e poesia é uma obra didática adotada pela Secretaria de Educação do Ceará e leitura obrigatória em todas as escolas indígenas do estado. Já o cordel Toda luta, a história e a tradição de um povo, fala sobre a história e as tradições do povo Tabajara.

O próximo trabalho, o cordel Coração na aldeia e pés no mundo, contará a trajetória da artista: os desafios de ser mulher, os preconceitos enfrentados por ser indígena e lésbica, a separação da aldeia, a vivência na cidade e muito mais. “De forma geral é a minha história resumida em mais ou menos 40 páginas”.

Até hoje, Auritha não escreveu nada diretamente relacionado à sua sexualidade. Apesar dos preconceitos já sofridos até mesmo dentro da própria comunidade quando se assumiu, acredita que primeiro precisa ganhar espaço como mulher e como contadora de histórias indígenas. “Lógico que sinto que comigo a discriminação é bem mais forte, principalmente dos homens. Já ouvi coisas como ‘nossa, índia e sapatão é fim de mundo’, mas acredito que não tenha muito diferença entre ser indígena ou não, as dificuldades e os preconceitos por ser lésbica são bem parecidos”.

Eu acredito que como mulher, seja bi, trans, lésbica, hétero, não importa, a gente precisa ser respeitada do jeito que somos

O que motiva a artista a continuar escrevendo é a vontade de assumir o protagonismo de sua própria existência e driblar o machismo e o racismo. “Escrevo para incentivar outras mulheres indígenas a contarem suas próprias histórias, chega dos não-indígenas dizerem o que acham de nós, nossa existência precisa ser registrada, lida e contada por nós mesmos. Acredito que nós, mulheres indígenas, temos a necessidade de crescer dentro e fora da aldeia”.

Auritha escreve cordéis desde pequena e hoje continua escrevendo para enfrentar o machismo e o racismo

A cordelista Tabajara tem como referência grandes líderes e mulheres que a inspiram diariamente a continuar na luta: “minha maior referência, sem dúvida nenhuma, é a minha vó, que hoje tem 90 anos e é parteira, benzedeira e uma das mais importantes contadoras de histórias lá da região. Essa é a minha base de  tudo que eu sou hoje”.

É pela avó, inclusive, que a neta é respeitada na comunidade depois de se assumir. “Contaram pra minha avó de um jeito absurdo e ela veio dizer que tinham falado que eu era um tal de sapatão. Respondi ‘não, mãe, eu calço 36 mesmo, é que esqueceram de dizer pra senhora que eu sou a única da família que gosta de gente’”, relembra.

Nós mulheres indígenas
Somos raiz deste chão
Somos fortes para parir
Cuidar e dar educação
O homem é só semente
Que fecunda e nasce gente.
E mulher, terra pra criação.

Além da inspiração familiar, Auritha também acompanha e admira o trabalho das parentas – indígenas que não são do mesmo povoado – Eliane Potiguara (escritora), Graça Graúna (escritora) e Cacique Pequena, líder do povo jenipapo-kanindé (compositora e cantora). “São muitas as mulheres que estão aí na luta, buscando espaço para que possamos falar do nosso conhecimento e da nossa sabedoria”. Que nunca falte inspiração e força para Auritha continuar escrevendo e para as artistas indígenas continuarem existindo e resistindo!