Quando me descobri negra: Bianca Santana expõe racismo em sua escrita-manifesto

“Tenho 30 anos, mas sou negra há apenas dez. Antes, era morena”. A frase inicia o livro Quando me descobri negra, da escritora e jornalista Bianca Santana, uma coletânea de crônicas e contos que refletem sobre sua identidade afro-brasileira.

A escrita sensível e poética de Bianca toca em assuntos importantes para o movimento negro no Brasil. Colorismo, o processo de branqueamento e miscigenação no Brasil e o racismo estrutural presente em nossas relações são alguns dos temas trabalhados no livro. A partir de relatos de suas vivências e de outras pessoas negras, Bianca costura sua ancestralidade e suas experiências individuais à coletividade do movimento negro brasileiro.

Literatura pra mim é expressão individual, coletiva e social, que ao mesmo tempo que tem muito de particular é também universal

Com a leitura do livro, conseguimos notar como a miscigenação no Brasil serviu e continua servindo para camuflar o racismo em terras brasileiras. Não pense, porém, que a leitura é escrita em “academiquês”! Apesar do tema ser abordado em muitas obras teóricas e acadêmicas, Bianca, com sua escrita empática e acolhedora, pensou em um livro com linguagem acessível e simples. Seja você branco ou negro, em algum momento com certeza vai se identificar e refletir sobre essa questão tão crucial para nós.

Escritora Bianca Santana
Foto: Caroline Lima

O Guia Maria Firmina conversou com a escritora na sexta edição do Festival Literário de Iguape. Na entrevista falamos sobre literatura, racismo, machismo, escritoras que a inspiram e projetos futuros. Vem ler:

Como surgiu a ideia do “Quando me descobri negra”? É seu primeiro livro?
O livro nasceu de um processo: eu escrevi um texto em 2005 chamado “como me descobri negra”, quando ainda estava na graduação. Esse texto ficou guardado e, depois de alguns anos, comecei a escrever em um blog no HuffPost relatos de coisas que eu vivia e fazia parte do meu cotidiano. A partir desses relatos no blog, a Renata Nakano me convidou pra fazer o livro, e a ideia era publicar relatos que já estavam no blog e outros inéditos para o trabalho.

Esse é o meu primeiro livro de histórias, mas antes dele eu já tinha um livro acadêmico que eu co-organizei chamado “Recursos educacionais abertos” e o “Aprender para contar”, sobre alfabetização de jovens e adultos.

Acredita que o cenário vem mudando nos últimos anos para escritoras e escritores negros e de outras minorias políticas?
Sim, mas como eu não sei! Antigamente eu tinha a sensação que havia um aumento na produção, mas agora que comecei a pesquisar no doutorado a escrita autobiográfica de mulheres negras, vi que desde o século XVIII as mulheres negras escrevem. A questão é o quanto essas histórias eram disseminadas: antes era uma produção muito cara e centralizada, e com a internet sinto que mais pessoas têm condição de publicar e que esse acervo está mais acessível.

Ilustração: Mateu Velasco

Quais são suas maiores referências de escritoras?
Tenho muitas escritoras como referência, mas as que estão mais perto de mim nesse momento, que fazem meu coração bater mais forte, são Conceição Evaristo; Cidinha da Silva, minha cronista preferida; e Toni Morrinson, que toda vez que leio é uma coisa avassaladora.

Acho que em cada época da vida temos algumas referências que ficam mais evidentes, mas tenho um monte de autoras que admiro demais. Li recentemente o Eu, mamãe e eu, da Maya Angelou e é muito precioso, muito mesmo.

O que é literatura pra você e qual a importância dela na criação de um novo imaginário no Brasil?
A literatura nos transporta para realidades completamente diferentes das nossas e que toca em questões profundas dentro da gente, é uma ponte entre o singular e o universal.

A questão é que a literatura a que temos acesso massivamente é branca, heteronormativa, feita por homens, com questões do norte do mundo. Essa literatura considerada universal e canônica se coloca como a única possível, então ela é excludente. Já a literatura feita por pessoas diversas não se coloca como a única possível e por isso está mais aberta às trocas e a perceber o quanto é possível se reconhecer a partir do outro.

Essa produção literária mais diversa começa a descobrir a verdadeira história do Brasil, que mostra a realidade de um jeito muito mais complexo do que a forma chapada que tínhamos antes.

Sou uma mulher negra de pele clara e origem pobre. Todos os livros que lia na infância e na adolescência não diziam respeito a minha realidade, então no meu imaginário a realidade era muito diversa, mas a literatura era muito específica. Ela não falava sobre as minhas questões, sobre o que eu e meus vizinhos viviam… Era outra coisa.

Quando li Becos da Memória da Conceição Evaristo eu não conseguia parar de chorar. É um romance que você vai percorrendo os becos de uma favela e são histórias das personagens da favela onde a Conceição cresceu, em Belo Horizonte, que parece muito com o Conjunto Habitacional que eu cresci em São Paulo. Aquelas histórias em um livro teve uma força enorme sobre mim.

Foto: Isabela Lapa

Quais são seus projetos futuros? Tem algum lançamento de livro previsto para esse ano?

O que estou trabalhando intensamente no momento é um livro que provavelmente lançará esse ano: a biografia da Sueli Carneiro. Além disso, tenho dois livros iniciados, mas nenhum deles está perto de finalizar!

Um provavelmente vai se chamar Polu, que era o apelido da minha avó, e é um livro que conta a história de uma migrante nordestina que veio da região do Rio São Francisco (Bahia) para São Paulo. Comecei antes de lançar o Quando me descobri negra, mas não sei quando vai ficar pronto.

O outro é apenas um projeto, mas em algum momento vou tirar do papel. A intenção é escrever pequenos textos e crônicas sobre pessoas que viviam no Conjunto Habitacional onde cresci.