Bruna Alcântara: a arte feminista costurando reflexões

“Nada mais irônico que usar o bordado, uma linguagem cultural ligada ao feminino, para falar de questões feministas”. Ao unir seu amor por contar histórias à fotografia e bordado, a jornalista Bruna Alcântara consegue criar trabalhos visuais potentes, que transbordam militância e feminismo em cada intervenção feita com agulha, linha e colagem em fotografias.

A primeira exposição individual da artista em São Paulo, Derivações para uma mártir, está em cartaz na Oficina Cultural Alfredo Volpi até o fim de março. A mostra traz 48 trabalhos que focam em assuntos como maternidade, feminismo, assédio e abuso sexual etc. Com curadoria de Michele Micheletto, a mostra é composta tanto por trabalhos inéditos, como a obra que propõe uma interação com o público, “Parem de Nos Matar”, quanto por obras já expostas em Portugal, Curitiba e São Paulo.

Colagem e bordado no trabalho de Bruna Alcântara
A artista retrata a maternidade em muitos de seus trabalhos

A arte sempre esteve presente na vida de Bruna graças aos seus avós, que trabalhavam com teatro. Desenhava na infância e fez aulas de pintura na adolescência, mas foi com o jornalismo que descobriu o amor pela fotografia e por fazer intervenções nela. Durante o mestrado em Portugal, o bordado que aprendeu com a mãe amenizou a solidão de quem estava grávida, sozinha e longe de seu país.  

A solidão se transformou em arte, e foi a partir dela que Bruna começou a criar. Tem o fato também “O meu discurso ser direto, não tem nada de abstrato: tá na cara e no nosso dia a dia tudo que eu digo com a minha arte”, explica a artista.

A jornalista e artista visual também trabalha muito com arte de rua, criando lambe-lambes que tiram o bordado do espaço comum e familiar, o levando para a cidade, espaços públicos, conquistados pelas mulheres a muito custo. “Quando eu coloco uma arte na rua, abro um leque de possibilidades de diálogo, né? Costumo dizer que meu lambe, pra outra mulher, é quase como um carinho, uma maneira de dizer ‘você não está sozinha’”.

A artista também faz trabalhos com lambe-lambe em diversos espaços públicos

Conversamos com a artista e jornalista Bruna Alcântara sobre mulheres que a inspiram, maternidade, processo criativo e muito mais!

Quando começou a se interessar pela arte?
A arte sempre esteve presente na minha vida. Mesmo tendo sido criada em Jacarezinho, numa cidadezinha do interior do Paraná, meus avós sempre trabalharam com Teatro. Meu avô tem 90 anos e ainda escreve, mas já desenhou e pintou também, então a arte, de maneira geral, nunca foi um universo distante.

Sempre me interessei por trabalhos manuais, gostava muito de desenhar na infância, na adolescência fiz três anos de aulas de pintura (e telas horrorosas!), mas foi com o jornalismo que me apaixonei de vez por fotografia, e a partir dela, por fazer intervenções visuais.

Como foi esse processo de unir a fotografia ao bordado? Por que a escolha do bordado, sendo muitas vezes ele é visto como artesanato e não como arte?
Fiz o meu mestrado em Portugal, e estava sozinha e grávida em outro país. O bordado foi uma lembrança afetiva que resgatei nesse momento de solidão, porque lembrava da minha mãe me ensinando quando era criança.

Agora como eu decidi unir a fotografia a isto, sinceramente não lembro, só aconteceu. Mas nada mais irônico que usar uma linguagem cultural ligada ao feminino, para falar de questões feministas, né? Além disso, o bordado é visto como artesanato, mas em outros países a arte têxtil é mais valorizada, existe até academias específicas de especialização.

Você já expôs em muitos lugares? A mostra na Oficina Cultural Alfredo Volpi é a sua primeira individual em São Paulo?
Já expus em festivais feministas no Porto, em Portugal. No ano passado cheguei ao Líbano, e agora estou com esta individual em São Paulo, em um centro cultural maravilhoso, no centro da periferia da maior cidade do país! Fico honrada, porque é um apanhado de cinco anos de trabalho, com fases que vão de auto-retratos a questões de outras camadas femininas.

A obra “Pise” é um tapete onde a artista bordou frases machistas que já ouviu para que outras mulheres pisem e passem por cima

Como é o seu processo de criação? Consegue nos explicar um pouquinho sobre a escolha dos temas tratados no seu trabalho?
Meu processo é bastante espontâneo, tanto com obras mais íntimas quanto com as mais políticas. Como o jornalismo já está em mim, os temas mais factuais são notícias do dia, da semana. Meu trabalho é político, é crítico, então com este governo bizarro tenho material para trabalhar diariamente, porque ele [governo] é agressivo, violento com as mulheres, negros, indígenas e LGBTQs. Viver no Brasil é uma residência artística absurda, ainda mais numa era onde a informação está pulando na nossa cara.

Também crio a partir de questões mais íntimas, ligadas à maternidade e à minha própria história, quando meu processo é de reflexão enquanto mulher e a obra se torna autobiográfica. Uso muito as histórias que escuto de mãe, tias, irmãs, amigas… Sem contar as mulheres que eu mal conheço, mas que por tratar de temas femininos, me mandam mensagem, contam histórias em botecos, no trabalho, no instagram.

É curioso ver como  nossas histórias são parecidas. Estamos todas silenciadas há séculos e agora sinto que temos um esforço geral e coletivo de mulheres com vontade de falar, de expressar, de por pra fora.

Olhando os seus trabalhos, percebemos uma forte presença de questões ligadas à maternidade, além de reflexões sobre racismo, machismo e LGBTfobia. São temas que você aborda para fazer as pessoas refletirem ou porque passam por suas subjetividades?
São temas que mexem comigo de maneira íntima. Eu não me acho uma “voz da consciência”, que tem a razão e veio para reeducar pessoas. O que faço é para aliviar minhas dores, mas as minhas dores são as dores de muitas outras pessoas, então cria-se identificação. Além disso, o meu discurso é direto e não abstrato: tá na cara e no nosso dia a dia tudo que eu digo.

É nesse dia a dia que entra também o papel do lambe lambe e da arte de rua, porque quando eu faço uma intervenção em um espaço público, abro um leque de possibilidades de diálogo. Costumo dizer que meu lambe é quase quase como um carinho para outras mulheres, uma maneira de dizer “você não está sozinha”.

Quais são suas referências de mulheres artistas?
Tenho umas quinhentas referências nesta vida. Para criar, minha maior inspiração são as mulheres comuns, do dia a dia. Agora nas artes, a lista é gigante! Na arte de rua, acho os grafites da Criola, Tamara Djurovic e Priscila Amorim um exemplo de delicadeza e força. Gosto muito dos lambes com fios da Victoria Villasa e as intervenções da maravilhosa Sil.vana, do Pará.

Fora das ruas, as porcelanas com arte têxtil da Alison Hunter; as colagens da Bárbara Scarambone e da Jessi Jumanji, a potência sem fim da Rosana Paulino, que é minha brasileira contemporânea favorita.

Poderia ficar por horas citando artistas que são boas pra caramba: Sophie Calle, Maria Evelia Marmolejo, Ana Mendieta, Frida Kahlo, Tracey Emin, Liana Nigri, Francela Carrera, Andréa Acker, Annegret Soltau, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Bell Hooks, Hilda Hilst, e por aí vai.

A artista também produz lambe-lambes para ocupar o espaço público e dialogar diretamente com outras mulheres

O que? Exposição Derivações para uma mártir
Quando? Até 30/3. Terça a sexta-feira, 10h às 21h30; sábado, 10h às 18h
Onde? Oficina Cultural Alfredo Volpi | Rua Américo Salvador Novelli, 416 – Itaquera
Quanto? Gratuito