O canto sagrado de Djuena Tikuna

Djuena Tikuna convida o público presente em seu pocket show a dar as mãos e fazer um círculo. Com a roda formada, a canção-oração Ewaré começa a ecoar no espaço. Quantas artistas indígenas você conhece?

A voz potente da cantora e a percussão que a acompanha coloca todos em contato com uma cultura subvalorizada no Brasil, mas parte importante de nossa história enquanto país. Mais que talento e amor pela arte, Djuena canta para transmitir a cultura e conhecimento de seu povo Tikuna e de seus parentes indígenas.

De acordo com o IBGE 2010, há 897 mil indígenas no Brasil, 0,5% da população total do país. Apesar de, hoje, pequena, essa parcela da população é formada por 305 povos que falam mais de 270 línguas diferentes.

Primeira cantora e compositora nativa da Amazônia que ganhou destaque no cenário nacional cantando na língua de seu povo, Djuena Tikuna é integrante da aldeia Umariaçu II (Tabatinga – Amazonas). Seu primeiro álbum, Tchautchiüãne, foi lançado em 2017 no Teatro Amazonas e contou com mais de 300 indígenas de diversas etnias convidados pela cantora para o espetáculo que lotou o monumento histórico. A cantora participou da produção musical Demarcação Já, ao lado de grandes nomes da MPB como Ney Mato Grosso, Chico César, Maria Betânia e Gilberto Gil.

Gravado inteiramente no idioma Tikuna, as composições do álbum falam sobre resistência cultural, identidade indígena, rituais e as ameaças aos direitos indígenas. O trabalho foi indicado na categoria Música Internacional no Manito Ahbee Festival, conhecido também como Indigenous Music Awards, prêmio canadense que celebra a cultura indígena. É a primeira vez que uma artista da Amazônia brasileira é indicada a premiação.

Minha referência é a música indígena, tanto do meu povo como de outros parentes.

Para saber mais sobre a produção indígena contemporânea e os desafios de ser ouvida em um Brasil que renega seu povo nativo, o Guia Maria Firmina conversou com Djuena Tikuna, que fala sobre suas referências musicais, os próximos passos na carreira, a viagem para o Canadá e muito mais!

Quando você começou a cantar? Sempre quis ser cantora?
Eu canto desde pequena, porque meu povo é muito musical. Minha avó cantava o que meu ancestrais cantavam e eu sigo com a cantoria. Faço parte de um caminho que os mais novos vão trilhar, assim como eu. Profissionalmente, fora de um contexto Indígena, eu canto há mais de 10 anos e as coisas foram acontecendo naturalmente, tudo tem seu tempo. O importante é que a cantoria não pode parar, carreira é só um detalhe, nosso compromisso maior é com a cultura viva, eterna e imortal.

Show de lançamento do álbum de Djuena no Teatro Amazonas | Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Quais são suas referências de artistas?
Minha referência é a música indígena, tanto do meu povo como de outros parentes. O que me influencia são os cantores tradicionais como Pedro Inacio Tikuna, uma grande liderança política e cultural do nosso povo, minha prima Claudia Tikuna, minha mãe com seu grupo Wotchimaücü, além da parenta Cíntia Guajajara, entre outras.

Uma influência marcante pra mim é minha outra mãe de cantoria, como a chamo, a querida Marlui Miranda, nossa We’eri, que na língua tikuna quer dizer pássaro, aqueles que cantam bonito mesmo. Ela e sua arte sempre estiveram presentes na minha história. Não só na minha mas na de vários artistas indígenas que reconhecem na Marlui uma pioneira e grande aliada na divulgação da nossa cultura, música e formas plurais de vermos o mundo.

Atualmente também tenho acompanhado o trabalho da Magda Pucci e do grupo Mawaca e tenho gostado muito. Márcia Kambeba também tem um trabalho musical e literário muito interessante.

Como é viver de música, fora da aldeia, para você que é de um povo para o qual a música é sagrada?
Eu acredito que meu trabalho tem uma importância muito grande no que diz respeito à valorização de nossa cultura e identidade. Eu sobrevivo da música, nada é fácil. Assim como outras pessoas sobrevivem de suas culturas, vendendo artesanato, fazendo cerimônias xamânicas… Acredito que o sagrado está dentro de cada um de nós, em mim ele se expressa com a música e sou muito grata por isso.

Foto: Divulgação

Pra você, qual a importância de ser uma artista indígena que está concorrendo um prêmio mundial por seu primeiro disco?
Eu acho interessante poder colocar a questão indígena em pauta, levar ao mundo a luta dos povos indígenas pela conquista e garantia de direitos é o principal motivo de um prêmio internacional. Mas particularmente não me envaidece e não é o foco do meu trabalho. Mesmo assim quero ir para o Canadá acompanhar o Indigenous Music Awards e conhecer os parentes de lá e cantar para eles também.Na real somos todos parentes.

Qual a repercussão da sua carreira na sua comunidade?
De uma forma geral tenho recebido muito apoio dos parentes. O movimento Indígena aqui até me indicou para concorrer ao Senado. Quando disse que não poderia por conta da idade o meu povo Tikuna do Alto Solimões disse que sairia a Deputada Federal. Falei que minha política era outra, mas agradeci a indicação.

Conto isso pois acho que mostra um pouco como os parentes têm confiança no trabalho que faço, e é muito especial ter esse reconhecimento do meu povo.

Como foi o processo de gravação do seu álbum? Você contou com apoio de alguma instituição?
Tive o apoio institucional do movimento indígena da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Fórum de Educação Escolar Indígena (Foreeia), Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia e Park Vieiraalves. Além disso, contei com o apoio do edital Proart da Secretaria de Cultura do Amazonas.

Quais são os próximos planos para sua trajetória musical?
Quando voltar do Canadá vamos começar a pensar na produção de um grande show indígena com a participação de vários povos no Teatro Municipal de São Paulo. Por enquanto é só plano, vamos correr atrás de parceiros que nos ajudem a fazer um grande ritual em São Paulo como fizemos no Teatro Amazonas no lançamento do Tchautchiüãne.