“Capittoo é, acima de tudo, resistência”

Capittoo é Thaine Leme, desde pequena gostava de sentar ao lado do seu pai enquanto ele pintava telas para  observar cada detalhe que fazia com as tintas. Assim foi tomando gosto pela arte, e logo começou a fazer desenhos realistas quando surgia um tempinho livre.

Se formou em letras e foi professora de língua portuguesa por seis anos, mas ser uma professora da rede pública de ensino não é, nem de longe, umas das coisas mais fáceis a se fazer, e o sistema acabou a desgastando ao ponto de chorar diariamente e decidir largar tudo para ser tatuadora no Grande ABC. Virou Capittoo, unindo a icônica personagem de Machado de Assis a sua nova profissão,  mas a tatuagem também não foi bem o que ela “veio ao mundo para”.

Descobriu que poderia ser  ilustradora em um grupo de WhatsApp, e segundo ela, foi lá onde aprendeu tudo que sabe sobre arte. Foi lá também onde encontrou o seu caminho e descobriu o que realmente queria fazer. Começou com fanart – arte baseada em um personagem ou obra  já conhecida, criada por fãs– passou por estúdios de arte que vendem a imagem de super heroínas hiper sexualizadas.

Hoje desenha mulheres como ela, que gostam de tomar uma cervejinha ou um café, heroínas reais. Além da desbocada e franca tirinha Exausta“, que assim como quase todas as mulheres já lidaram com um macho dizendo: “Você não vai”, “não pode” ou “é feio uma mulher que faz isso” … Aposto que vocês viraram os olhinhos para essas frases e também se sentiram exaustas!   

Como que você começou a fazer ilustrações?

Tudo que eu aprendi sobre arte foi em grupos do whatsapp. Entrei no grupo Minas Artistas, que é  formado apenas por mulheres artistas, e elas me mostraram as inúmeras formas de ilustrar e como eu poderia me encontrar neste caminho. Mas só percebi que isso era o que eu deveria fazer quando enviei alguns desenhos meus para um estúdio que leiloa fanart para o exterior pelo Ebay. Foi quando eu vi que poderia viver daquilo.

Vendo as suas redes sociais percebi que houve uma grande mudança na forma como você ilustra mulheres, como isso acontece?

Depois que me mudei para Adamantina, SP, conheci o coletivo feminista Cíclicas 018 e acabei fazendo parte da administração do grupo como uma das moderadoras. Como a luta feminista está sempre ao meu redor, principalmente por eu ter voltado à militância por conta do coletivo, comecei a usar minha arte como uma espécie de protesto. Exponho ideias, possíveis respostas e mostro que Capittoo é, acima de tudo, resistência.

Como era a sua arte antes da militância?

A princípio os estúdios de arte pediam para que mulheres sensuais fossem desenhadas, mas eu não conseguia fazê-las assim,  exatamente pela objetificação da mulher muito explícita nesses ambientes. Então comecei a desenhar mulheres que me representassem, como a Supergirl tomando café ou a Vampira do X-men com uma caixa de cervejas na mão. Depois disso, pensei mais pelo lado da militância e na forma como eu poderia representar as mulheres com a minha arte.

Como surgiu a tirinha “Exausta”?

Em um dos grupos de WhatsApp que eu participo tem desafios semanais com temas que o ganhador da semana anterior escolhia, uma vez o tema era “Friendzone” e ninguém havia feito. Então fiz um desenho correndo com uma mocinha que parecia comigo naquele momento dizendo que friendzone é o nome dado à pessoas que não sabem ouvir um “não”. Gostaram e a Pribalima sugeriu que eu fizesse uma série de desenhos do tipo. Foi quando resolvi fazer a Exausta, que está tendo uma boa aceitação tanto no Instagram quanto na página do Facebook.

O  legal da Exausta é que são momentos que eu vivi em meus relacionamentos e, muitas vezes, não percebi que eram abusivas. Algumas leitoras também sugerem ideias para a tirinhas, e o conteúdo é o que vivemos com qualquer homem.

Quem são as artistas que de inspiram?

Eu acho que a arte no Brasil é pouco valorizada, então gosto de enaltecer artistas pouco conhecidas, como Erica Linhares (@ericadesenha), Marcia Monteiro (@wannastayugly), Laila Alves (@lailalalves), Cindye (@cindyeart), Marianita (@marianita.ilustra) e a Thais Piontkewicz (@thaiiisquisita). Mas se falarmos de artistas conhecidos, cito com toda certeza a Anita Malfatti, pois sou apaixonada pela semana de 22 e o trabalho que fizeram.

Qual é a sua ilustração favorita?

É a de uma das minhas melhores amigas, ela me apoiou demais quando sofri um abuso, foi ela quem me apresentou ao feminismo em 2016 e me dá apoio até hoje. Essa imagem mostra claramente como nós tivemos de aguentar certos situações e, apesar de ser um desenho colorido, só me faz lembrar que eu ainda tô aqui.


Onde encontrar Capittoo? 

Facebook: Capittoo Ilustra e Exausta 

Instagram: @capittoo