Casa Vulva: arte, diversão e tesão

Nasce em São Paulo, das vulvas da jornalista Rafaela Piccin e da psicanalista Denise Mamede, um espaço de arte, diversão e muito tesão.

Além de um espaço aberto para trocas de conhecimento e um bom papo, a Casa Vulva é também o lar da Rafa e Denise, que resolveram juntar o amor pela arte para somar com outras mulheres produtoras – e homens também, por que não? – para criar um novo espaço na cena independente paulistana.

“Somos muito curiosas, em especial por sons novos, e admiramos muito o fazer independente de artistas: a criatividade, a reinvenção, as dificuldades, os sonhos… Formei em jornalismo, mas há um tempo já estava a fim de trabalhar com produção de eventos, estar mais próxima da produção artística em si, por mais que eu não produza arte. Realizar conexões, mostrar coisas novas para as pessoas”, conta Rafaela Piccin.

Casa Vulva, novo espaço na cena cultural independente de São Paulo

A inauguração da Vulva acontece dia 3 de março, sábado, a partir das 16h20. Aberta no mês da mulher, a programação de boas-vindas conta apenas com artistas mulheres: show da GEO, cantora e compositora de pop experimental, com bases de hip-hop e R&B; discotecagem com DJ Gê, com mixagens repletas de brasilidades, hip-hop, pop, entre outros; performance Ofélia com a atriz Nathália Fernandes e malabarismo com hula com Sabryna Murali. Os comes ficam por conta da Mamé, com opções para carnívoros e vegetarianos, além de cervejas, cachaças e drinks.

Rafaella e Denise deixam claro que, apesar do nome e do protagonismo feminino ser latente na Casa Vulva, homens são bem-vindos. “Não  toleramos atitudes machistas mas eles são mais do que bem-vindos, tanto como artistas quanto como público,  afinal de contas eles precisam aprender e somar na luta ao nosso lado. Ou a gente vai junto, ou ninguém vai em lugar algum”, conta.

Quer saber mais do que vai rolar na Vulva? O Guia Maria Firmina conversou com uma idealizadoras do espaço, Rafaela Piccin, para saber o que vai rolar depois da inauguração.

Denise Mamede e Rafaela Piccin, criadoras do espaço

O que é a Casa Vulva?
A Casa Vulva é a nossa casa [minha e da Denise], mas também é a casa de quem estiver interessado em conhecer algo novo e ir além do entretenimento e diversão noturna: é um lugar  de autoconhecimento, re-conhecimento, respeito, tesão pela troca. Uma das nossas frases preferidas é “sem tesão não há solução”, um livro do Roberto Freire altissimamente recomendado. E por essas e outras e gente curte fazer trocadilho com o nome: “casa vulva sempre aberta”.

Mesmo com essa boa onda do feminismo, muitas casas de shows e espaços culturais são geridos e programados por homens. Não é uma crítica, mas acreditamos que mulheres produzindo e programando têm um olhar diferenciado na valorização das nossas.

Como surgiu a ideia de tornar a casa de vocês em um espaço aberto ao público?
Acho que primeiro de tudo é importante dizer que eu e a Denise temos muito em comum no que se refere a sempre ter sido público de eventos culturais e eventualmente acompanhado as correrias de bandas de amigos e conhecidos próximos.

Na segunda metade de 2017 comecei a bolar mentalmente o plano de ter uma casa cultural e chamei a Denise para participar. A gente tinha se conhecido há alguns meses só, mas nem foi preciso ficar explicando muito: ao falar casa cultural a proposta já era bem clara para as duas no sentido de agregar pessoas, dar palco para artistas independentes, gerar circulação, criar mais um local de respiro em São Paulo que é uma cidade bem grande sim, mas a renda é mal distribuída, né?! Além disso, a Denise é psicanalista e queria atender em casa, então agora ela consegue atender aqui na Casa Vulva.

O nosso lance é a arte e vamos reforçar a todo momento que ela deve ser valorizada, inclusive acima do consumo.

Por que “Vulva”?
Surgiu numa conversa de boteco, tomando cerveja em um belo dia de sol e pensando que o nome deveria ter algo a ver com o feminino, de maneira simples, direta. E aí veio a Vulva, porque é, ao mesmo tempo, acolhedora, poderosa, prazerosa. Estamos em uma onda muito boa de descoberta do poder das mulheres unidas, da nossa sexualidade, das nossas capacidades individuais e coletivas e achamos que tinha tudo a ver.

Arte: Divulgação

A casa abre dia 3/3, certo.  Como será a abertura?
A abertura oficial é sábado, dia 3 de março, inaugurando o mês da mulher. Para isso, escalamos apenas artistas mulheres: tem o show da GEO, que conhecemos por indicação e achamos massa; outra Geovanna vai discotecar; duas amigas da Denise performers de Ribeirão Preto, que vão fazer intervenção cênica (Nathalia) e malabarismo com hula (Sabryna). Além das comidinhas da Mamé (buraco quente para carnívoros e quibe com abóbora para vegetarianos).

Como queremos que vá bastante gente para conhecer a casa, decidimos fazer entrada gratuita neste dia. Porém, como muitos investimentos rolam na produção de um evento, colocamos um “pague quanto puder” para que o público crie a consciência de que existem pessoas trabalhando muito para aquele rolê acontecer e que se todo mundo contribuir com uma graninha, todos recebem no final.

Colocamos preços que consideramos justos no bar – R$ 6 a lata de heineken 350ml, R$8 o chopp Dádiva lager 300ml, R$5 a cachaça artesanal, R$8 o drink de cachaça com tônica – para não desfalcar o bolso de ninguém e para que as pessoas possam destinar um dinheirinho para o artista. Não somos um bar, não temos como fazer preço de boteco que vende litrão, mesmo não sendo a  nossa proposta principal. O nosso lance é a arte e vamos reforçar a todo momento que ela deve ser valorizada, inclusive acima do consumo. O famoso “chapéu” que vamos passar vai ser revertido totalmente para pagar as artistas.

Quais serão os dias e horários de funcionamento e os valores de ingresso?
Como estamos começando agora, não temos um horário de funcionamento e nem valores fixos. Queremos testar, sentir o clima, sentir o público, a aceitação, e também pegar o macete de realizar os eventos para saber onde não tomar prejuízo. Mas como moramos lá, é só bater na porta que a gente recebe todo mundo!

Uma das programações já confirmada é a I Mostra de Cinema Lagoa Vulva. Fale um pouco mais sobre ela.
Fizemos um chamamento para mulheres que realizam filmes se inscreverem para participar da programação. A ideia é exibir curtas e médias, para poder contemplar duas mulheres por dia com um intervalo entre um filme e outro para tomar uma cerveja.

Quem vai fazer A curadoria desses filmes será de Stephanie Bevilaqua, formada em jornalismo pela PUC junto comigo que atualmente faz uma pós de cinema em Buenos Aires. A mostra vai ser de 27 a 30 de março, às 20h, com entrada gratuita.

A ideia do nome da mostra nasceu de uma brincadeira com trocadilhos de nomes de filmes, “troque qualquer palavra do filme pela palavra vulva”, aí alguém falou A Lagoa Vulva, por causa de A Lagoa Azul. Sonoramente ficou massa essa brincadeira com alagar a vulva, vulva molhada, etc.

A Casa Vulva é um projeto independente, sendo assim, como vocês pensam em manter o espaço?
Na questão financeira a gente tem analisado caso a caso também. Acho que faz parte do nosso esquema e proposta esse lance de evitar reproduzir o ‘modus operandi’ de empresas e setor corporativo (só só só lucro) dentro de um projeto independente. A gente vive no capitalismo mas não precisa reproduzi-lo exatamente em todas as esferas da vida, então… isso vai ser moldado ao longo do tempo e com mais experiência de Casa Vulva.

Serviço: Casa Vulva
Onde? Rua Coriolano, 345, Vila Romana
Quanto? Entrada colaborativa (pague quanto puder)