Claire Feliz Regina, a economista que se descobriu poeta aos 80

Claire Feliz Regina veio ao mundo para mostrar que nunca é tarde para começar algo novo: a economista começou a escrever poesia aos 80 anos e hoje, dez anos depois, possui três livros publicados.

Antes de se descobrir poeta, Claire trabalhou por 50 anos na Receita Federal, onde participou da equipe que digitalizou os procedimentos do Imposto de Renda brasileiro. “Sou de uma família muito pobre de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e tudo na minha vida foi muito difícil”. A menina que começou a ler aos cinco anos largou a escola para ajudar na renda da família composta pela mãe e nove filhos, contando com ela. “Queria que meus irmãos tivessem o que comer e conseguissem ter pelo menos lápis e caderno para estudar, coisas que eu não tive”, conta ao Guia Maria Firmina.

Quando casou, Claire voltou a estudar e fez a Escola Normal – curso de segundo grau para a formação de professores que podem lecionar no ensino elementar – mesmo sem o apoio de seu companheiro na época. Após a empresa do marido falir, começou a dar aulas de reforço para sustentar a família, prestou concurso público para Tarefeiro da Receita Federal, conquistou a primeira das 28 vagas e deu um passo em direção ao seu sonho de trabalhar no órgão estatal.

Coração sofrendo muito por ter um vazio na alma,
ou por ter a alma vazia.
É assim que se encontra a rima,
é assim que se faz poesia.

Dali em diante foram décadas na carreira de exatas: cursou a faculdade de Economia, trabalhou em diversas empresas, fez cursinho preparatório e, aos 50 anos, passou no concurso de Fiscal da Receita Federal, trabalhando de 1958 a 2008 no local.

Aos 90 anos, Claire têm três livros publicados e um incrível talento para fazer arranjos de flores com papel crepom.

Após décadas de dedicação aos estudos sobre economia, Claire se viu perdida ao se aposentar. Certo dia pediu a sua filha Renata, também poeta, que a levasse para um dos saraus que costumava frequentar. Sabendo que só poderia acompanhar a filha se levasse consigo algum texto autoral, Claire escreveu dois poemas eróticos e, no sarau Sopa de Letrinhas, apresentou pela primeira vez aquilo que preencheria seu tempo livre nos próximos anos.

“Depois que apresentei meus dois poemas eróticos as pessoas me puxavam, me abraçavam, quase fui esmagada pela euforia. Como gostaram do que apresentei, comecei a acreditar em mim e toda madrugada fazia poemas”. A poeta lamenta, porém, ter começado a escrever tão tarde. “Minha memória não é mais a mesma, então hoje se eu preciso de uma rima vem somente uma palavra à mente, meu vocabulário foi reduzido pelo tempo”.

Quando penso que Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos sessenta e cinco e Clementina [de Jesus] aos sessenta e tantos gravou o seu primeiro disco, vejo claro como é equivocado pensar que a gente acaba antes de acabar.
Elisa Lucinda no Prefácio de “Meu jeito de falar: Poemas eróticos”

Seus poemas falam sobre amor, sexo e o feminino de forma pura e direta, muitas vezes com o olhar de uma adolescente apaixonada, ou uma jovem que acabou de ter sua primeira desilusão amorosa.

Apesar de acreditar que poderia ter feito muito mais se tivesse começado antes, os feitos de Claire são incríveis: três livros publicados pela Editora Patuá, sendo um deles apenas com poemas eróticos; participação assídua em diversos Saraus na cidade de São Paulo como Sopa de Letrinhas, Sarau da Maria, Sarau da Paulista e dezenas de poemas decorados na ponta da língua, esperando para serem declamados – durante a entrevista,  a poeta recitou no mínimo cinco poemas sem precisar ler sequer uma linha em seus livros. Quer memória melhor que essa?

“Minha inspiração vem de momento: uma ideia, uma frase, algo que já aconteceu comigo… A partir disso eu vou atrás das palavras das rimas para conseguir compor o trabalho”, explica a poeta. Mesmo com uma curta trajetória na poesia, o pouco que Claire fez é o bastante para mostrar para quem a conhece que nunca é tarde para aprender coisas novas e sair da sua zona de conforto.