Congada de São Benedito e a tradição de Luzia no 13 de maio

São Bento do Sapucaí, São Paulo-quase-Minas Gerais. A cidade, tipicamente interiorana, tem como um de seus bairros o Quilombo. Dentre os moradores do lugar, uma se destaca: Luzia Maria da Cruz, responsável pela Congada de São Benedito e pela Festa do 13 de maio realizada anualmente.

13 de maio é um dia muito bonito, a Congada se reúne para festejar  São Benedito, ai ai
E a rainha, com a bandeira na mão, reza pra Santa Isabel que deu a libertação, ai ai
Santa Isabel é uma santa milagrosa, libertou a escravidão por ser muito caridosa, ai ai
À meia-noite a festa vai terminando, eles beijam a bandeira pra voltar no outro ano, aiai.

A música acima integra o repertório da Congada, é utilizada desde a época em que a matriarca responsável pelas atividades de Dona Luzia era sua avó materna Silvéria, trazida ao Brasil para ser escravizada.

Foto: Angelo Sartori

A lucidez de seus 87 anos de resistência carrega onze filhos nascidos de parto natural, trinta netos e quarenta bisnetos – sem contar os filhos e netos de criação – além de muito trabalho dentro de casas de famílias, na roça e na criação das crianças. Com o primeiro e único amor, viveu um casamento que durou seis décadas.

A vida na Congada da avó Silvéria iniciou na mesma época do primeiro trabalho em casa de família. Aos oito anos, Luzia era uma criança que colocava em prática as brincadeiras de mamãe e filhinha ao cuidar dos filhos de uma costureira para ajudar a mãe, que trabalhava na roça, com as despesas de casa.

A música, os ensaios, as roupas coloridas e a devoção a São Benedito despertaram a paixão da pequena, que adorava dançar nas apresentações e participar das festas anuais que a avó organizava com tanto zelo.

Raízes

A Congada é um cortejo que integra o folclore e a cultura afro-brasileira. Reunindo elementos das tradições de Angola e do Congo — por isso o nome — carrega influências europeias relacionadas ao catolicismo, ou seja, é um evento carregado de sincretismo religioso, pois entidades dos cultos africanos eram identificadas aos santos do catolicismo para que Igreja, autoridades e escravocratas aceitassem a celebração.

A Congada de São Benedito começou com Dona Silvéria no Bairro dos Martins em Paraisópolis, Minas Gerais. Ao casar e mudar para Gonçalves (MG), Luzia deixou de frequentar a Congada que foi perdendo força após a morte de Silvéria. Chegando no Bairro do Quilombo, após anos de luta e trabalho com o marido para conquistar o próprio pedaço de terra, decide resgatar o cortejo para tirar as crianças da rua e passar a tradição da família às próximas gerações.

Congada de São Benedito na edição de 2017 da Festa 13 de Maio

Nenhum começo é fácil. Conversou com pessoas que diziam ser muito difícil fazer as crianças se interessarem pela Congada, mas não desistiu. Falando com o conselheiro do bairro, Marcinho, conseguiu o apoio que precisava, convidou as crianças para o primeiro ensaio e elas foram, curiosas, saber o que significava Congada.

Na época, o vereador Simão do Quilombo (PSD) conseguiu verba para fazer camisetas das apresentações, e os pequenos dançavam com elas e calças jeans. Depois, um rapaz de São José dos Campos inscreveu o grupo em um edital público de incentivo à cultura e conseguiu comprar as roupas e sapatos que a Congada utiliza até hoje, apesar de já precisar de vestimentas novas para os que cresceram e ainda participam. Aqueles que começaram a ensaiar no início do projeto de Dona Luzia, há trinta anos, hoje são pais e seus filhos já crescem sabendo o que é o cortejo que movimenta o bairro e participando dele.

Pandeiro, sanfona, violão e caixas compõem a parte instrumental da manifestação cultural. Nas calças e camisas rendadas dos homens e nas saias e vestidos das mulheres, cores e mais cores — roxo, azul, amarelo, laranja, vermelho, dourado, entre outras. Turbantes, faixas com flores e chapéus também ganham espaço nas vestimentas dos participantes. Ao todo, 40 pessoas integram a Congada que, nas apresentações, revezam-se de acordo com os horários disponíveis. Luzia, entretanto, está sempre presente. É a alma do cortejo, a líder que organiza os ensaios e que parece não cansar ao conciliar a rotina da casa com os ensaios e apresentações que faz sempre que solicitam.

Descendente de escravizados vindos da Etiópia e conhecido como santo protetor dos negros, São Benedito é homenageado e carregado na bandeira da Congada, ao lado da imagem de “Santa Isabel”, a princesa que assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888 e promoveu legalmente a libertação dos escravizados. Para celebrar a data, Luzia resgatou outra tradição da avó: a festa do 13 de maio, que reúne a vizinhança, visitantes, Congadas e maracatus de outros lugares para comemorar o fim da escravidão no último país do mundo a assinar a abolição.

A Festa do 13 de maio é tradição na cidade e reúne centenas de pessoas todos os anos

Chegou a festa mais esperada da cidade! Os convidados sempre presentes são a Congada de Nossa Senhora Aparecida, liderada pela sobrinha em Gonçalves (MG); o Moçambique de Taubaté (SP); o Maracatu de Alfenas (MG) e coletivos de Capoeira. Os grupos chegam cedo para o café da manhã com roscas, biscoitos, broas de milho, pães, leite e café — tudo feito por Luzia e mais 15 mulheres, a maioria da família.

Depois, a Congada desce até a Igreja Matriz de São Bento, no centro da cidade, para a celebração da missa. Nas últimas edições da festa 13 de maio, a maior parte do público ouviu as palavras do padre de fora da Igreja, que já estava lotada. Hora do almoço! Arroz, feijão, macarronada, salada, frango… Dona Luzia recebe as prendas mais ou menos um mês antes da festança, e as doações são feitas por pessoas que, posteriormente, participam do evento.

Todos satisfeitos? Que se iniciem os cortejos, tanto da Congada anfitriã quanto dos grupos convidados! A celebração leva tempo para ser planejada, mas alegra o coração da matriarca cuja felicidade maior é ver todos felizes, dançando e de barriga cheia.

Quem não tem pouso na cidade nem se preocupa: há sempre um espaço com cobertas recém-lavadas para a ocasião na casa de Luzia e sua família, pronto para abrigar os que retornam às suas cidades somente quando o galo cantar e o sol raiar.

Será que Luzia sabe que resiste mantendo a tradição passada pela avó e preservando a memória de um passado que o Brasil insiste em manter invisível? Sabendo ou não, o que importa é a felicidade dessa mulher forte e inspiradora que organiza a Festa do 13 de maio de forma independente com um único objetivo: fazer com que a vida, quase sempre áspera e difícil, seja um pouquinho mais suave.

Este ano a Festa do 13 de maio acontece dia 12/5 no Bairro do Quilombo, São Bento do Sapucaí (SP), a partir das 10h. Caso queira saber sobre eventos que relembram a Abolição da Escravidão, veja nossa página de eventos.