Elza Soares, jazz e samba num só som

Eu vim do planeta fome
Vivo, sonho, Elza
Trago esperança nos olhos
Vivo, canto, Elza
Sou verdade, sou alma!
Elza, Rimas&Melodias

Ela é umas das artistas mais importantes do país, rainha do samba, do jazz brasileiro, da bossa negra. É a mulher do fim do mundo. O Guia Maria Firmina conversou, por e-mail, com Elza Soares, eleita a Cantora do Milênio pela BBC de Londres, mas subestimada na sua própria terra.

Elza nasceu na favela Moça Bonita, em Padre Miguel, Rio de Janeiro. Filha de um operário e uma lavadeira, já carregou muita lata d’água na cabeça. Aos 12 anos de idade foi obrigada a se casar para “proteger a sua honra”, aos 13 já era mãe e aos 15 via o seu segundo filho morrer – de fome.

Foi também neste mesmo ano que, na esperança de conseguir dinheiro para alimentar seu filho,  Elza Soares se apresentou ao público pela primeira vez (escondida da família) no programa de calouros da Rádio Tupi. Ao ver a menina raquítica, pobre e com roupas visivelmente grandes demais para ela, o apresentador do programa Ary Barroso perguntou “de que planeta você veio?”, sem esperar pela resposta certeira: – Eu vim do mesmo planeta que você, do planeta Fome. Neste momento os risos da platéia silenciaram e deram espaço a voz rouca, impressionante e tão potente que nem parecia sair da boca daquela menina. Não foi preciso acabar a música para Ary Barroso sentenciar que naquele momento nascia uma uma estrela.

Foto: Daryan Dornelles

Ele estava certo, mas essa estrela teve que esperar ficar viúva, aos 21 anos, para começar a brilhar. Daí em diante, a menina faminta se tornou uma das mulheres mais exuberantes que este país já viu. Mas, assim como tudo em sua vida, como ela mesma diz, este caminho foi e ainda é muito tortuoso e cheio de obstáculos.  

Apesar de já fazer sucesso na época em que conheceu o craque de pernas tortas, viu o país inteiro reconhecê-la como “a amante de Garrincha”, que desfez o casamento para se casar com Elza Soares. Com Garrincha foi casada por mais de 17 anos, teve um filho, foi obrigada a viver no exílio depois de ter a casa onde morava metralhada por militares. No exílio teve que lidar com dificuldade de cuidar de um marido alcoólatra e violento, e ao mesmo tempo colocar comida na mesa.

Mesmo sendo reconhecida internacionalmente, inclusive por ser a única intérprete a substituir a diva do jazz Ella Fitzgerald – convidada pessoalmente pela cantora para se apresentar em seu lugar – Elza Soares passou mais de dez anos sem produzir, chegou a trabalhar no circo e pensar em largar a música quando voltou ao Brasil.

Mas assim como a fênix, que carrega tatuado no corpo, ela ressurgiu, ainda mais forte e disposta para lutar. Hoje, aos 80 anos, Elza Soares está longe do descanso da aposentadoria. Em 2015 a cantora lançou A mulher do fim do mundo, primeiro álbum de  músicas inéditas dos trinta e três discos que já gravou. As onze canções do álbum falam sobre machismo, racismo, feminicídio e recolocou a artista no circuito musical nacional: com ele, Elza ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de Música Popular Brasileira em 2016; ocupou a décima colocação na lista do editor de artes Jon Pareles, do New York Times; ficou entre os 50 melhores discos da lista do Pitchfork, site independente de crítica musical, e foi eleita personalidade Cultural no Prêmio Bravo 2016.

“Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Dentre todas as canções do álbum, Maria da Vila Matilde se destaca como uma canção-manifesto contra a violência doméstica. A música composta por Douglas Germano narra a história de uma mulher que decidiu denunciar o companheiro-agressor pelo 180, número do disque-denúncia. O compositor conta, em entrevista para a revista Rolling Stone que Elza Soares foi a primeira mulher que ele viu falando sobre o assunto, motivando assim sua composição.

Acha que a carreira da artista se encerrou com esse álbum? Nada disso! Em breve Elza entra em estúdio para gravar o próximo, Deus é Mulher, mesmo com a agenda cheia com os três shows que ela têm apresentado: A mulher do fim do mundo, Elza canta Lupicínio e A voz e a máquina. Com 16 pinos na coluna, Do pescoço até o cóccix – que inclusive nomeou seu álbum lançado em 2012 – sequelas  de uma queda em uma apresentação no Metropolitan, Elza Soares tem problemas de locomoção e faz o show sentada, sem nunca perder o fôlego.

Em 2018 a biografia da cantora, escrita por Zeca Camargo, estará à venda em todo o país, bem como o musical inspirado em sua trajetória e os documentários que estão a caminho. A mulher do fim do mundo não para, tem garra e força de sobra para cantar até o fim.

Quando fez sua primeira apresentação na Rádio Tupi, mesmo tendo deixado claro o seu talento, a sua família foi contra a sua carreira artística. Esta proibição estava relacionada ao fato de você ser mulher?
Lógico! Mulher, negra e pobre querendo ser artista em um país machista, você queria o que? Não foi fácil tentar provar para o mundo que eu precisava seguir a minha intuição, eu queria apenas mudar e melhorar minha vida e de meus filhos com a garganta que Deus me deu. Além da minha coragem e inquietude em não aceitar a vida que vivíamos em nossa casa, eu tinha certeza que  a ferramenta para mudar nossa vida estava aqui ó [na garganta]. Enfrentei o mundo para provar que também podia ser uma cantora profissional.

Como foi ser uma artista negra, mulher e mãe há 60 anos atrás?
Sempre soube que nada em  minha vida seria fácil. Apanhei muito, mas também bati!
É difícil, com todas as características que eu carregava, encontrar facilidades, por que além de o Brasil ser um país preconceituoso é também um país machista. O segredo é levantar a cabeça e seguir em frente sem olhar para trás.

Você é pioneira em muitos aspectos: da voz inconfundível ao reconhecimento como voz do milênio na BBC. Quando começou no Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, era seu sonho chegar onde chegou?
Cara, eu fui ao programa do Ary Barroso tentar a sorte. Não com o objetivo de ser cantora profissional, mas para buscar a grana que ele dava para quem cantava bem para salvar o meu filho, que estava muito doente, e saí de lá como vencedora!
Depois de muito tempo é que entendi quando o Ary anunciou: “Senhoras e senhores, neste momento nasce uma estrela”. Na hora, ali no palco, fiquei procurando a estrela que ele disse que estava nascendo, porque eu era tão ingênua que imaginei uma estrela do céu…

Na letra de Mulher do fim do Mundo, onde no final eu falo “me deixem cantar até o fim”, fui eu que improvisei quando estava no estúdio gravando

Você tem mais de seis décadas de carreira na música. Qual é o papel que essa arte desempenha na sua vida?
A arte foi um agente transformador. Foi a música que me possibilitou mudar de vida e criar meus filhos com dignidade. Hoje eu uso esse espaço que penso que conquistei para lutar por causas que acredito, porque acredito que tenho que retribuir tudo que a vida me deu e todos os dias lutar por mim e por todos que precisam ganhar voz.

Como foi desenvolver o Mulher do fim do mundo, 34º álbum de sua carreira porém o primeiro de inéditas, aos 78 anos? Você pretende parar em algum momento ou, como diz na segunda música do álbum, “vai cantar até o fim”?
Sabia que na letra de Mulher do fim do Mundo, onde no final eu falo “me deixem cantar até o fim”, fui eu que improvisei quando estava no estúdio gravando? Fiz isso porque para mim é vital cantar, e vou cantar até o último momento da minha vida.

A música Maria da Vila Matilde é um grito de basta a violência contra a mulher. Você mesma foi vítima de violência doméstica há muitos anos, porque só agora resolveu quebrar este silêncio?
Acredito que tudo tem seu tempo. Quando esta música chegou em minhas mãos achei que era a hora de bradar aos quatro cantos do mundo que é preciso denunciar, que não podemos sofrer caladas, que  não podemos permitir nenhum direito a menos. Gemer só se for de prazer!

Depois de todos esses anos na música, consegue perceber hoje uma mudança de cenário para as mulheres negras artistas?
Olha, nós avançamos, mas ainda há muito para conquistar. O artista negro ainda é muito barrado e segmentado, e precisamos mudar esse olhar. É preciso resistir!

O que é ser uma artista mulher e negra? Qual é a importância das mulheres e mulheres negras ocuparem esse espaço?
Artista, negra e mulher é sinônimo de resistência! É muito importante erguer a cabeça e enfrentar, mostrar ao mundo que somos fortes e que não nos subestimem, porque coragem é o nosso nome.

Foto: Patrícia Lino