Onde estão as mulheres na história da arte?

Nos últimos anos, o questionamento sobre o papel da mulher na sociedade tem estremecido as bases sociais do patriarcado. O feminismo e o feminino estão em alta, muito se fala sobre empoderamento, sororidade e girl power (poder feminino).

Até mesmo museus tradicionais abriram suas portas às artistas. Parece que nossos gritos por igualdade, liberdade e respeito começaram, finalmente, a serem ouvidos. Que ótimo! Ao mesmo tempo, porém, sentimos que parte da nossa história deixou de ser contada. Onde estão as mulheres na história da arte brasileira? Será que elas não existiram? Será que as modernistas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral foram as precursoras?

Embora tenham sido muito importantes, Anita e Tarsila estão bem longe de serem as pioneiras. Mas para você saber disso, teria que ter feito uma pesquisa não muito simples para encontrar outras artistas brasileiras que ganharam destaque na história da nossa arte.

Uma Estudante, da pintora modernista Anita Malfatti

Para a professora Ana Paula Simioni, docente do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, os artistas antes do período modernista costumam ser ignorados. “Há uma tendência geral em ver com reticências a produção designada “acadêmica” como um todo, inclusive a masculina. No caso das mulheres isso é ainda pior porque elas acessaram a formação acadêmica muito tardiamente (1892 no Brasil). Inviabilizadas de se formarem nas principais instituições, as artistas eram vistas como amadoras pelos críticos de arte. Isso fez com que fossem secundarizadas no campo artístico de seu tempo e isso tem impactos até hoje”.

É preciso nos perguntarmos porque o formalismo é visto como “a” leitura mais correta das obras, e porque a leitura politizada, como é a leitura feminista, é vista como redutora e inferior
Ana Paula Simioni

Em 1971, a americana Linda Nochlin, historiadora da arte, fez o questionamento “por que não houve grandes artistas mulheres?” em um artigo que, até hoje, é considerado atual. “A inserção das mulheres na arte depende do modo como as sociedades se organizaram ao longo da história, dando menos espaço a elas, sobretudo nos espaços públicos”, conta a Professora Doutora Maria Cristina Pereira. A pesquisadora é co-fundadora do Geagê, Grupo de Estudos sobre Arte e Gênero da USP.

A partir dos anos 70, a arte feminista, que questiona os papéis das mulheres em diversos espaços, começa a ganhar importância social. “É uma arte produzida por artistas feministas questionando uma série de construções e papéis tradicionais de gênero, como ficar em casa e se dedicar unicamente à família”, conta a professora. É com essas artistas e historiadoras dispostas a questionar a falta de mulheres no meio artístico que nasce a história feminista da arte, explica Maria Cristina: “ideias e discussões teóricas trazidas por críticas, historiadoras e artistas como Linda Nochlin, Griselda Pollock, Miriam Schapiro, Laura Mulvey, entre outras, fizeram avançar a própria história da arte, inserindo novas temáticas e conceitos como o gênero”.

O trabalho de todas as artistas faz avançar a participação das mulheres no cenário das artes e é um passo rumo à igualdade de gênero. Nesse sentido a atuação delas pode ser considerada feminista, mas isso não significa que sua produção o seja
Maria Cristina

De lá para cá houveram avanços lentos e, quantitativamente, não muito significativos. Segundo levantamentos das artivistas Guerrilla Girls – coletivo de artistas americanas conhecidas por protestarem contra a falta de equidade de gênero nos museus do mundo todo – o número de mulheres artistas em exposição no MASP, um dos principais museus de arte do país, era de apenas 6%, já a quantidade de nus femininos chega a 63% das obras do acervo. Na arte, as mulheres sempre ocuparam o espaço de “musas”, quase sempre nuas, mas as artistas que queriam mostrar o seu trabalho eram consideradas amadoras.

Exposição das Guerrilla Girls no MASP

Segundo Ana Paula, o cenário é mais otimista no século XXI mas, ainda assim, há muito a conquistar. “O livro de Alain Quemin, Les Stars de l´art contemporain, deixa muito claro que existe uma projeção crescente feminina no âmbito do mercado.  Passa-se de 7% de artistas bem posicionadas entre os 100 mais consagrados artistas para 20 a 30% após 2000. Ainda estamos muito longe dos 50%, mas significa uma mudança. No campo das coleções de museus também se percebe que a medida em que a instituição possui mais obras contemporâneas, aumenta-se o número de obras assinadas por mulheres”.

Obras realizadas por mulheres são feministas?

Nem todo trabalho que envolve mulheres artistas são considerados feministas. “Existem artistas que não se vêem de modo nenhum nesse movimento, e isso não faz delas más artistas, que isso fique claro”, conta Ana Paula. “É certo que o trabalho de todas as artistas faz avançar a participação das mulheres no cenário das artes e é um passo a mais rumo à igualdade entre os gêneros. Nesse sentido, de modo geral a atuação de todas elas pode ser considerado feminista, mas isso não significa que sua produção, sua arte, o seja”, complementa Maria Cristina.

Para Ana Paula, precisamos avançar na compreensão nas dimensões do gênero no campo da arte. A participação equilibrada de mulheres nos cargos de direção de museus, curadoria e o direito de artistas a expor seus trabalhos é importante, mas não podemos parar aí. “Creio que precisamos avançar na compreensão de como a dimensão imaginária, que é fortemente política, está presente no campo das artes. Lygia Clark, por exemplo, é uma artista muito conhecida e reconhecida, mas quantos curadores e estudiosos levam em conta a dimensão feminista do seu trabalho? Se ela é interpretada como boa apenas em termos formalistas isso despolitiza seu trabalho. É preciso nos perguntarmos porque o formalismo é visto como “a” leitura mais correta das obras, e porque a leitura politizada, como é a leitura feminista, é vista como redutora e inferior”.

Assim como em qualquer movimento histórico, é difícil chegar ao ponto exato de partida. Com o auxílio de Maria Cristina e Ana Paula, o Guia Maria Firmina chegou em algumas pioneiras da arte brasileira:

Trecho de Paisagem, de Abigail de Andrade
Abigail de Andrade (1864)

Foi uma pintora muito atuante entre 1881 e 1884, e a primeira artista plástica a ser premiada, em 1884. Morava no interior do Rio de Janeiro, em Vassouras. A premiação foi da Exposição Geral de Belas Artes. Apesar de ter tido bom reconhecimento da crítica, feito várias exposições, nenhum museu público tem uma obra sua.

Mocidade, de Julieta de França
Julieta de França (1870)

Escultora e pintora, foi a primeira mulher a frequentar aulas de modelo vivo no Brasil, proibida para mulheres até 1897. Ficou esquecida pela dificuldade que tinha em se integrar ao sistema, desafiando seu superiores, como Rodolfo Bernardelli, o mais importante escultor da época, que lhe fechou as portas dos principais salões de arte. Era uma transgressora por natureza, mãe solteira numa época em que isso era grande escândalo.

Sessão do Conselho do Estado, de Georgina Albuquerque
Georgina Albuquerque (1885)

Pintora que introduziu o impressionismo no Brasil, Diferentemente das obras dos pintores brasileiros focados em abordar batalhas, ela apresentou uma cena muito importante tendo como a figura heróica uma mulher Princesa Leopoldina, em meio a uma reunião de Conselho de Estado, presidida por José Bonifácio, discutindo a necessidade do Brasil tornar-se independente de Portugal. Georgina também era uma sufragista.

Vaidade, de Angelina Agostini
Angelina Agostini (1888)

Pintora, escultora e desenhista brasileira, filha do também pintor e caricaturista Angelo Agostini e da pintora Abigail de Andrade. Recebeu menção honrosa na 18ª Exposição Geral de Belas Artes em 1911 e, nos dois anos seguintes da mostra ganhou, respectivamente, a pequena medalha de prata e o prêmio de viagem à Europa com a tela Vaidade (foto). Viajou para Londres em 1914 e durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), presta serviços assistenciais como voluntária da Cruz Vermelha, o que lhe vale o reconhecimento do governo britânico. De volta ao Brasil, ganhou a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes (SNBA) de 1953 e foi membro do júri da mostra em 1957. Nesse mesmo ano, figurou na exposição O Nu na Arte, do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Rio de Janeiro.

Dinorah Carolina Azevedo (1890)

A gravurista nasceu no Rio de Janeiro em 1890 e, a partir de 1905, estudou na Escola de Belas Artes. No curso de gravura de medalhas de pedras preciosas recebeu medalha de ouro (1912) e Prêmio de Viagem ao Estrangeiro (1913). Em 1914 foi estudar em Roma, sob a orientação de Augusto Girardet. Participou da Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1908, 1913 (menção honrosa), em 1916 (medalha de prata) e em 1919 (medalha de ouro). Professora Catedrática de Gravura, lecionou na Escola Nacional de Belas Artes.