Costuras de Rosana Paulino abrem chagas do racismo brasileiro

“Para mim a arte é verdadeira quando toca naquilo que incomoda quem produz”. A artista visual Rosana Paulino se propôs, desde o início de sua carreira, a trabalhar com o tema que sempre a incomodou: a representação da população negra, a forma como é contada a história dos escravizados no Brasil e a união desses dois pontos para a manutenção do racismo estrutural no país.

Com trabalhos visualmente fortes, potentes e perturbadores, a artista ocupa a Pinacoteca na exposição Rosana Paulino: a costura da memória. Com mais de 140 obras que traçam os 25 anos de carreira de Paulino, a mostra é a maior individual daquela que é reconhecida por abordar de forma afiada temas socais, étnicos e de gênero – questões perturbadoras para a sociedade brasileira.

“No Brasil nós somos muito ingênuos e não damos à imagem o valor que ela tem. Muito do racismo que existe sobre a população negra não foi dito em palavras, mas foi posto em imagens. Contra essas imagens somente outras imagens, então trabalho nessa chave de perceber que para ter novas narrativas é necessário desafiar as narrativas precedentes, as narrativas excludentes e as narrativas racistas, trazendo outras mais plurais”, conta a artista.

Com técnicas que variam entre instalações, bordado, gravuras, desenhos e esculturas, Paulino questiona, em cada uma de suas obras, a visão colonialista da falsa democracia racial brasileira. A ciência, principalmente a biologia, também se faz presente em seus trabalhos, para mostrar como algumas ciências biológicas contribuíram para a supremacia branca.

A minha primeira grande exposição não foi feita no Brasil, mas em Portugal. É ridículo ver que precisamos sair do Brasil para reconhecerem o nosso trabalho

“A ciência não é neutra”, diz Paulino à Folha de São Paulo. “Classifica-se para explorar, para justificar a dominação de um povo por outro. O Brasil ainda está contaminado por essa ideia de racialização de uma pseudociência de 200 anos atrás que justifica a discriminação racial”.

Ao visitar a exposição, você com certeza notará que o bordado é a técnica mais usada nos trabalhos da artista. A ideia é mostrar visualmente a tentativa do país de costurar e remendar partes de seu passado escravocrata como se nada tivesse acontecido. As costuras são grosseiras, imperfeitas, cheia de marcas que não podem ser esquecidas sem a devida reparação histórica.

Detalhe da obra “Tecelãs” (2003) | Foto Divulgação

Dividida em três salas do Museu, a mostra traz grandes obras como instalação Assentamento (2013), composta de figuras em tamanho real de uma escravizada retratada por Ausgust Sthal para a expedição Thayer, comandada pelo cientista Louis Agassiz. Essas imagens monumentais impressas em tecido, material predominante na prática mais recente de Paulino, são acompanhadas de vídeos do mar e fardos de mãos como fogueiras.

“A figura que deveria ser uma representação da degeneração racial a que o país estava submetido, segundo as teorias racistas da época, passa a ser a figura de fundação de um país, da cultura brasileira. Essa inversão me interessa”, comenta a artista. O título da obra, que encerra a exposição, traz um duplo sentido: é tanto a fundação de uma cultura e identidade, quanto a energia mágica que mantém o terreiro, segundo as religiões de raiz africana. “É onde se encontra a força da casa, seu axé”.

O Guia Maria Firmina conversou com Rosana para saber um pouco mais sobre seu processo criativo, pesquisa artística e a importância da arte para transformação social. Vem ler!

Série “Paraíso Tropical” (2017) | Foto: Divulgação

Você é bacharel em gravura e doutora em artes visuais pela ECA. Quando você notou que queria ser artista e pesquisadora na área?
No segundo ano da graduação eu tinha dúvidas se queria ir pra área de museus ou pra educação, ou até mesmo a publicidade, mas no terceiro, quando comecei a expor o que eu criava, comecei a perceber que o meu negócio era mesmo a produção de arte.

Acredito que para a arte ser consistente ela precisa de muita pesquisa, então não gosto muito desse termo artista-pesquisadora. Acho que toda artista que tem uma produção consistente é também pesquisadora de certa forma. Gosto de deixar isso em evidência porque aqui no Brasil parece que artista é uma coisa e pesquisador é outra, mas quando você está procurando uma técnica, um modo de passar uma mensagem, isso faz parte da pesquisa artística.

Como foi esse processo de perceber que sua arte seria voltada para as questões raciais e de gênero? Acredita que sua produção artística pode ser “enquadrada” como artivismo?
Quem faz arte sempre vai tocar em questões que incomodam a si mesmo, então é lógico que sendo uma mulher negra no Brasil isso chamaria a minha atenção. Não me via representada, nem via minha cultura representada, então vi que queria discutir isso.

Eu não gosto do termo artivismo pois parece que pegamos uma causa agora, depois mudamos a causa, como se fosse um passo a passo. A minha arte é o que eu sou e o modo como eu me coloco no mundo, e esses termos que são criados fora da produção da artista me incomodam porque acho que fica superficial. A arte é aquilo que eu sou, então se quiser falar que é artivismo, fale, mas eu não vou classificar assim pois acho muito superficial.

Conte um pouco sobre seu processo de criação. Como é esse processo de deixar tentar ser didática e instigar o público a refletir a partir de suas próprias vivências?
Meu processo de criação varia conforma a obra. Na realidade ninguém sabe o que é esse processo, né, como ele acontece… Ele pode acontecer a partir da observação de uma frase, um poema, um problema, e até mesmo num sonho – sonhar com algo que depois eu queira trabalhar melhor. O processo de criação é um dos grandes enigmas da humanidade, não sabemos bem como ocorre.

Nunca pensei em ser didática, mas eu sou uma comunicadora, e arte é comunicação, então obviamente eu preciso colocar essa mensagem de um modo que seja compreensível ou que desperte questões.

Não é didático porque cada um tem o seu caminho, seu modo de operar, mas a arte desvela e traz assuntos que muitas vezes estão na pauta do dia, mas as pessoas ainda não percebem. O meu processo vai por esse caminho, de levantar essas questões e trazer essas discussões que muitas vezes estão escondidas, mas precisam ser escancaradas.

Rosana Paulino | Foto: Ana Branco (Agência O Globo)

Essa é, segundo o site da Pinacoteca, sua maior individual no país. Como artista, qual a importância de ter seu trabalho reconhecido em um dos museus mais importantes de São Paulo?
Essa é a minha maior individual no país, então sem dúvida nenhuma é uma grande alegria estar com a mostra na Pinacoteca. Poder ver esses 25 anos de produção no espaço é muito importante, porque conseguimos ter uma ideia do nosso próprio percurso. É importante pelo reconhecimento, mas também para ver o caminho percorrido durante os anos, senão perdemos a dimensão daquilo que foi produzido.

Você acredita que o cenário vem mudando para artistas negras? Acha que as instituições culturais estão “abrindo espaço” (espaços conquistados com muito suor pela militância) para reconhecer as produções culturais de artistas negras?
Sem dúvida o cenário vem mudando. As instituições estão começando a admitir que existe uma produção negra, uma produção de gênero e uma produção indígena sendo feita no Brasil de muita qualidade. Esses lugares estão até atrasados em comparação a outros lugares do mundo.

Há uma pressão interna dos produtores e produtoras negras para conseguir esse espaço, mas há uma pressão externa internacional, que muitas vezes esquecemos: instituições, museus e universidades questionando  onde está a produção negra no Brasil.

Acho que estão abrindo espaço entre aspas mesmo, porque teve muito trabalho da parte dos críticos, artistas e curadores para que as produções fossem reconhecidas. Na verdade eu acredito que as instituições ficaram pressionadas e tiveram que responder a isso.

Quais são suas referências de artistas mulheres?
Eu não gosto de citar referências com relação a artistas mulheres e negros porque esse é um campo que no Brasil chegou pouca coisa ainda, essa é que é a verdade.

Precisamos lembrar que a internet é bastante recente, e nos meus anos de formação a gente não tinha internet, então não tinha nem acesso a essa produção. Não é uma questão de arrogância, mas essa produção não chegava no Brasil.

Eu tinha um livro na biblioteca sobre alguma artista interessante, ou tinha uma revista e só. Meus anos de formação foram bem carentes nesse sentido de representatividade, e agora já estou em uma idade na qual a poética já está formada.

Sem dúvida nenhuma eu admiro muitas outras artistas, mas não sei se colocaria como referência, pois referência é algo que pega muito nos anos de formação.

 Acha que a arte é um espaço que auxilia na transformação do imaginário coletivo sobre a população negra no Brasil?
Sem dúvidas! Acho que no Brasil nós somos muito ingênuos e não damos à imagem o valor que ela tem. Muito do racismo que existe sobre a população negra não foi dito em palavras, mas foi posto em imagens.

Um exemplo clássico: qual é a posição que a TV coloca, até hoje, os indivíduos negros? Por que um comercial como o da Boticário, que coloca uma família negra de classe média como protagonista, gera tanta repercussão e reclamação? Porque desafia os estereótipos.

A imagem está aí, formando ideias e conteúdos sobre um povo, então para quebrar esses estereótipos só com novas imagens. Sem dúvida nenhuma o imaginário coletivo é formado e muito pela imagem que se colocou até agora, e pra mudar isso só com outras possibilidades.