Guerrilla Girls: nossos museus estão prontos para elas?

Pense nas últimas exposições que você visitou. Agora responda: quantas mulheres integravam o grupo de artistas que compunham a mostra? Quantas eram retratadas nuas ou de forma objetificada? Questionar sobre a presença feminina no acervo de grandes museus e renomadas galerias é a essência das Guerrilla Girls, coletivo de artistas feministas que inaugura a exposição-retrospectiva “Guerrilla Girls: gráfica, 1985-2017” no MASP a partir de 29 de setembro.

Por meio de performances e cartazes recheados de humor, ironia e estatísticas preocupantes, as Guerrilla fazem críticas severas ao machismo, racismo, LGBTfobia e outras discriminações que historicamente permeiam o universo da arte. “Nós começamos [em 1985] a usar os cartazes porque vimos que ninguém se importava com a discriminação, eles acreditavam que o que estava nos museus era o que tinha de melhor, e tudo o que estava de fora não era. Então nós começamos a pensar como falar isso de um jeito diferente, tentando quebrar as regras em que as pessoas acreditavam”, contam em coletiva de imprensa que precedeu a abertura da mostra.

A exposição do MASP é a primeira individual do coletivo norte-americano no Brasil e ocupa o mezanino do 1º subsolo do Museu, onde os cartazes estão distribuídos em linha cronológica e percorrem as duas paredes do espaço. Os pôsteres estão em inglês, com legendas em português. Dois dos trabalhos, entretanto, foram recriados e traduzidos exclusivamente para a exposição: um deles, o famoso cartaz amarelo com a representação da figura da obra A Grande Odalisca (1814), de Jean-Auguste Dominique Ingres, vestida com máscara de gorila – característica do coletivo. Na obra, a pergunta “as mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?” ganha destaque, com dados do acervo do Museu.

Um dos cartazes mais famosos do grupo de artistas, com dados coletados no acervo do MASP | Foto: Guia Maria Firmina

As Guerrilla Girls surgiram como forma de reação a uma exposição no Museum of Modern Art, de Nova York, em 1985. Supostamente esta exibição reuniria os nomes mais significativos da arte contemporânea, mas dos 169 artistas expostos, apenas 13 eram mulheres e todos eram brancos.

O coletivo de artistas mulheres feministas sempre se apresentam publicamente usando máscaras de gorilas e nomes de artistas já mortas, para preservar a identidade das integrantes. Também não é revelada a quantidade de componentes do grupo, elas dizem apenas que já chegaram a ser mais de 20 artistas.

Atuando há mais de 30 anos, as Guerrilla Girls já participaram de mais de 100 projetos, desenvolvendo cartazes, ações, livros, vídeos e adesivos em diversas cidades dos mundo, tudo isso de forma independente, sem patrocinadores ou compradores milionários de arte. Hoje, as ativistas dos direitos humanos são uma das principais vozes ativas contra o preconceito de gênero e étnico, bem como contra a corrupção na política, na arte, no cinema e na cultura pop.

“As vantagens de ser uma artista mulher” lista de forma irônica os obstáculos que as mulheres enfrentam na arte | Foto: Guia Maria Firmina

Para Camila Bechelany, curadora-assistente do MASP, a exposição chega em um momento importante no panorama da arte no Brasil, principalmente após os casos de censuras em diferentes instituições culturais nas últimas semanas. “O fato dessas censuras acontecerem coloca mais um atrativo na exposição pois elas estão falando de questões polêmicas, sobre a participação das mulheres e das pessoas negras, da objetificação do corpo feminino na história da arte, e são questões que incomodam”.

Questionada sobre o que MASP está fazendo para reverter a baixa representatividade feminina em seu acervo, Camila esclarece a política de aquisição do Museu, contando que nos últimos anos os curadores têm priorizado as doações de obras criadas por mulheres, e adianta: em 2019 todas as exposições terão como foco o feminino e os feminismos. “Conseguimos recentemente uma aquisição de Anna Maria Maiolino, outra de Cinthia Marcelle. Focamos nas artistas, já que sabemos que isso é um déficit da coleção”.

Com uso de estatísticas e linguagem popular dos cartazes, as Guerrilla Girls atingem seu objetivo com sucesso, fazendo com que o público reflita sobre questões que, muitas vezes, passam despercebidas. “Fico muito orgulhosa por termos encontrado uma forma de sobreviver, de termos conquistado uma reputação internacional sem participar desse mundo capitalista da arte. Eu sempre digo, pense como evitar isso, como fazer arte barata e como fazer as pessoas chegarem onde você quer”.

Serviço
O que? Exposição Guerrilla Girls: Gráfica, 1985-2017
Quando? 29/09 a 14/02/2018. Terça-feira a domingo, das 10h às 18h
Onde? MASP – Avenida Paulista, 1578
Quanto? R$30 (inteira); R$15 (meia). Todas as terças-feiras as entradas são gratuitas.