Hystereofônica e a criação de rede de mulheres na música eletrônica

A revista House Mag, principal periódico sobre música eletrônica no país, promove desde 2008 um ranking nacional que elege, por votação pública, os artistas mais populares na cena eletrônica. Na lista dos Tops 50 DJs 2017, vemos apenas três mulheres: Groove Delight, Devochka e Anna. Será que nos interessamos tão pouco por ser DJ? Para mostrar o que quase nunca aparece nos rankings, Ágatha Barbosa, mais conhecida como Cigarra, idealizou a coletânea Hystereofônica, lançada pelo selo Tropical Twista Records.

“O Hystereofônica nasceu dentro de uma necessidade. Assim que entrei pro Selo Tropical Twista eu comecei a trazer pesquisas sobre músicas de mulheres. Era um momento de visibilidade da mulher na música, na cena underground e no mundo, e veio essa ideia de montar a compilação com essas pesquisas”, conta Cigarra.

Lançado em 2016, o primeiro álbum reúne artistas de diferentes vertentes que se enredam na cena eletrônica latino-americana nas mais variadas texturas sonoras e beats por minuto. São mais de 20 mulheres envolvidas – da técnica à masterização, passando por quem desenha a capa.

Em 2017, as dez faixas da coletânea contaram com a participação de 15 mulheres no processo de produção. No segundo ano do Hystereofônica, resistência foi a palavra que guiou o processo curatorial de Cigarra. “Falar sobre continuidade e expansão da rede feminina na música é falar sobre resistência. As faixas vão desde o experimentalismo livre ao pulso sintético do Techno, passando por uma variedade rítmica que tem por recorte o gênero feminino e o intuito de dar visibilidade a uma metade do planeta que vive sob a sombra histórica”.

Cigarra conversou com o Guia Maria Firmina e falou sobre o cenário undergound em São Paulo, a produção da terceira edição da coletânea e muito mais.

Cigarra, idealizadora da coletânea Hystereofônica

Como surgiu a ideia do Hystereofônica? O nome é algo relacionado à histeria?
O Hystereofônica nasceu dentro de uma necessidade. Assim que entrei no Selo Tropical Twista Records comecei a trazer pesquisas sobre músicas de mulheres. Era um momento de visibilidade da mulher na música, na cena underground e no mundo, então fui buscando referências pra isso, e aí veio essa ideia de montar essa compilação com essas pesquisas. Agora sobre o nome… Hyster é útero e a histeria, originalmente, era um diagnóstico de doenças que vinham da mulher, do útero – e que era um equívoco sobre a expressão da mulher, em linhas maiores. O nome surgiu para se apropriar desse termo, é usar esse termo que nos acusam pra falar que sim, somos isso e a gente reconstrói esse termo pra vocês entenderem qual é a real.

Descobrir essa rede mundial de mulheres que estão de olho nisso é um dos melhores frutos. Sem essa rede, essa força coletiva, seria muito difícil de desenvolver esse trabalho

Quais são suas referências de mulheres nessa área da música?
Mulheres de ancestralidade me inspiram, como Délia Derbyshire, que faz um trabalho baseado em colagens há quase um século, e é muito referência no meu trabalho, ou Zabé da Loca, uma pifeira [pessoa que toca pífano] nordestina que morreu em agosto desse ano com 93 anos, referência de uma cultura tradicional pela sua potência e resistência. Durante as pesquisas para o Hystereofônica fui descobrindo novas mulheres de uma musica experimental que me surpreenderam demais, com uma produção bem brasileira: Leandra Lambert, Bibiana Graeff, Marcela Lucatelli, Badsista, Mavi Veloso…

Em breve sai o livro da jornalista Claudia Assef sobre a Sonia Abreu, primeira DJ mulher do Brasil, e é essencial uma publicação como essa para que essa trajetória entre na história e sirva de referência para outras. O argumento é sempre que as mulheres na música eletrônica não existem, mas aqui temos alguns exemplos de muitos nomes que estão por aí. Existimos e somos muitas.

Você vive em Lisboa. Acredita que na Europa a cena eletrônica é diferente para as mulheres?
Vivo há um ano e meio em Lisboa e estou desenvolvendo um trabalho lá, focada em expandir essa cena pra lá. É diferente, mas nada melhor. A cena na Europa, tirando alguns núcleos e casos, alguns expoentes que mobilizam coisas específicas, como algumas festas em Berlim, em torno do feminismo, ou em Madrid, de uma classe feminista bem segmentada, a cena geral é a mesma. Mas tá rolando! Tem parcerias que faço por lá, projetos de festa, de como é ser brasileiro e periférico na música lá, e isso é muito promissor e necessário trabalhar com isso.

As duas edições da coletânea reúnem mais de vinte mulheres. Pra você, qual a importância de criar essa rede?
A repercussão foi muito boa, fomos inspirando um polo na cena eletrônica, um catalizador dessas mulheres. As pessoas começaram a me trazer novas referências, falar de novas compilações, outras que produziram projetos semelhantes entraram em contato comigo… Descobrir essa rede mundial de mulheres que estão de olho nisso é um dos melhores frutos. Sem essa rede, essa força coletiva, seria muito difícil de desenvolver esse trabalho.

Além disso, a coletânea serviu como vitrine para as artistas e mostrar pro mundo que a gente existe. As produções de festas começaram a nos chamar, pois descobriram o nosso trabalho.

Quais são os planos para 2018? A terceira edição da coletânea tem previsão de lançamento?
A terceira edição vem ano que vem. Em fevereiro vou começar a fazer os convites, e a ideia é lançar em outubro. Essa coletânea vai trazer pela primeira vez um recorte temático mais definido. Nas duas primeiras senti que era necessário falar sobre a quantidade de mulheres produzindo, sem um recorte temático de estilos musicais. Já na terceira edição me veio essa vontade: já falamos da quantidade, agora que já está visível isso, queremos falar da potência criativa, desenvolver o trabalho dentro de uma temática, de um recorte sonoro. Os nomes das artistas participantes podemos falar daqui uns meses.

Para anotar na agenda

Separamos aqui algumas festas que a DJ citou que acontecem em São Paulo, todas produzidas, pensadas e idealizadas por mulheres. Se liga!

Mambanegra
A festa, criação da DJ e produtora Cashu e da cantora Laura Diaz, é referência de evento idealizado por mulheres nacional e internacionalmente.
Próxima edição? Mamba Negra + Voiski
Quando? 16/12 | Sábado, 23h
Onde? Local ainda não divulgado, saiba pelo evento
Quanto? R$25 a R$45

Macumbia
Coletivo-festa dedicado aos ritmos latinos, com foco na cumbia, estilo que nasceu na Colômbia. Com forte influência da música africana, o ritmo pulsa também no Chile, Argentina, Panamá, México e Peru.
Idealizada pela DJ Gabi Pensanuvem, as festas prometem batidas dançantes, cores vibrantes, projeções temáticas, erotismo latente e euforia tropical.
Próxima edição? Macumbia no Exquisito
Quando? 17/12 | Domingo, 19h às 0h
Onde? Exquisito – Rua Bela Cintra, 532
Quanto? Entrada gratuita

Dûsk
A festa, que tem como residente a DJ Amanda Mussi, é um diálogo entre estilos de música eletrônica digital e analógica, voltada para House e Techno.
Próxima edição? Dûsk espacial de Natal
Quando? 25/12 | Segunda-feira, 2h às 10h
Onde? Rua Álvaro de Carvalho, 380
Quanto? R$20 a R$30 (compre aqui)