Márcia Dailyn: atriz, bailarina do Municipal e Diva da Praça Roosevelt

No dia 13 de agosto, em Jales, interior de São Paulo, nascia aquela que seria a primeira bailarina transexual do conservador Teatro Municipal de São Paulo, também um dos mais importantes do país.

Filha de um eletricista muçulmano, e uma professora de aeróbica e jazz, Márcia Dailyn cresceu rodeada pela dança, arte pela qual se apaixonou.

Saiu do interior e veio para São Paulo em busca do sonho de ser artista. No país que mais mata travesti e transexuais no mundo, aos 40 anos, Márcia  é uma vencedora apenas por estar viva, já que a média de expectativa de vida da população trans no país é de 35 anos, metade da expectativa de vida das pessoas cis.

O sonho de Márcia era maior que todos os obstáculos que colocavam por conta de sua identidade de gênero, e por ele enfrentou tudo sem nenhum arrependimento.“Eu sou artista e vou morrer artista. Não me importo por ter passado fome, frio, por meu pai ter me expulsado de casa por eu ser quem eu sou, de ter sido retirada de balés, de peças de teatro que estudei e não pude me apresentar por ser assim. Doí… Machuca olhar o passado, mas me engrandece”, diz emocionada.

Márcia no espetáculo “Pinktar” | Foto: Salim Mhanna

 Formada, com nome social e registro de atriz e bailarina na carteira de trabalho, Márcia faz parte de uma minoria de transexuais que conquistou esses direitos básicos.  Segundo Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das pessoas trans sobrevivem da prostituição de seus corpos, que não são aceitos à luz do dia, mas desejados pelas ruas ao cair da noite.

Ao Guia Maria Firmina, Márcia Daylin conta sua trajetória, se emociona ao falar do passado, se mostra grata a todos que a deram uma oportunidade e a enxergaram como Márcia, e nada mais. Fala muito de amor, respeito e dignidade, do quanto ama a sua profissão e se orgulha da mulher que se tornou e de ter conquistado o seu sonho com muita luta. 

Você é bailarina e atriz?
Sou bailarina e atriz, formada. A minha carteira de trabalho é o meu orgulho, registrada nas modalidades bailarina e atriz. Independente do meu gênero, eu sou artista, isso para mim é primordial.

Eu me amo, sou uma guerreira, uma lutadora. Ainda vou passar por muitas barreiras, mas hoje posso dizer que  tenho um exemplo, sou um exemplo, e  deixo um exemplo para as travestis e transexuais de que nós podemos ser diferentes sim. Com caráter, respeito e dignidade

Como foi o processo de formação do Municipal?
Foi muito árduo e muito difícil, mas  sempre acreditei no meu sonho, sempre acreditei onde  queria chegar. A minha transição aconteceu ao mesmo tempo em que  entrei no Municipal, cheguei aqui em São Paulo já feminina e entrei no corpo de baile do Teatro, na época ainda fiquei quase dois anos como menino, mas ao longo do tempo, por conta do meu corpo, da minha aparência e meu jeito, não dava mais para desempenhar um papel masculino, tinha que ser feminino.  Confesso que fui retirada de algumas peças por ser transexual, tinham professores e diretores que me deixavam  fazer as aulas, participar da coreografia, mas não deixavam eu me apresentar. Mesmo assim o Municipal me deu muitas oportunidades e experiências únicas, como participar de companhias estrangeiras, além da graduação como artista.

Você foi a primeira bailarina trans do corpo de balé do Teatro Municipal, certo?
Sim. O título de primeira bailarina transexual é muito especial em minha vida, eu passei fome, frio, dificuldade, cheguei a morar em Franco da Rocha porque não tinha mais lugar aqui em São Paulo para  ficar. De lá eu saía de manhã e só voltava à noite,  a única coisa que eu podia comer durante o dia era um pão e um tomate que trazia na bolsa. Isso me emociona demais, porque eu sempre acreditei que seria reconhecida como artista, e que  poderia expressar com meu corpo o que amo, sinto, vivo e admiro. É um reconhecimento muito lindo.

O que significa para você ser musa do Acadêmicos do Baixo Augusta, atriz dos Satyros e Diva da Praça Roosevelt?
O reconhecimento do Satyros, de me reconhecer como atriz e me colocar como diva da praça Roosevelt [coração do teatro paulistano, posto ocupado antes pela atriz cubana e transexual Phedra D. Córdoba, que faleceu em 2016], é uma honra em minha vida.Chegar aos 40 anos de idade, com 25 de carreira, sendo musa do Acadêmicos do Baixo Augusta, um dos maiores blocos de rua do carnaval de São Paulo, Diva da Praça Roosevelt e Diva dos Satyros é um divisor de águas. É olhar para trás e ver que tudo que eu fiz, tudo que eu passei, valeu a pena. Vale tudo a pena.

Foto: Zé Carlos Barretta

Você acha que ocupar todos esses espaços tem um caráter político?
Eu já nasci política.Por ser quem eu sou, acordar cedo, pegar um ônibus e vir trabalhar é um ato político, ter a carteira registrada, com qualquer função é um ato político. É isso que a gente quer mostrar para a sociedade, que independente de ser transexual ou travesti, eu quero trabalhar, quero acordar cedo, quero ter uma vida diurna, quero ser comum como todo mundo é.  Eu sou um ato político, eu sou a política. Eu mostro que travesti e transexual não é bagunça, a gente estuda, acorda cedo, pagamos os nossos impostos, damos respeito e queremos receber respeito. Esse ato político é o que prego, deixando amor, paz, dignidade e respeito por onde você passa.

Você acredita que o cenário está mudando para as mulheres trans no meio da arte?
Com certeza está aumentando o número de mulheres trans na arte, agora temos mais visibilidade, mais convites para participar de peças, palestras e apresentações. Isso é incrível, quando eu cheguei em São Paulo, na década de 90, era quase impossível ser uma artista trans, imagina, não tinha como. Agora tem mais artistas, aos pouquinhos o campo está abrindo, a gente ainda esbarra nessa sociedade conservadora e hipócrita, mas quem quer fazer arte com dignidade e honrar nossa classe, tem espaço sim e estamos abrindo cada vez mais.

Eu já nasci política.Por ser quem eu sou, acordar cedo, pegar um ônibus e vir trabalhar é um ato político, ter a carteira registrada, com qualquer função é um ato político.

Acha que drags como Pablo Vittar e Gloria Groove confundem as pessoas, que geralmente associam a arte de drag queen a identidade de gênero das mulheres trans?
Não, são artistas maravilhosos, que eu curto a música, admiro, que levantam a bandeira assim como eu. Só que como a música tem um alcance muito maior e mais rápido que o teatro, por exemplo, por chegar até as pessoas sem que elas precisem ir a um lugar específico para ter acesso a este conteúdo, esses artistas acabam tendo mais visibilidade. Acho que as pessoas precisam buscar conhecimento para entender a diferença de um artista que está realizando uma performance vestido como mulher e identidade de gênero. Também tem que ter um pouco de interesse da sociedade em entender essas pessoas e em querer saber quem são, de onde vieram, como vivem e como chegou até ali. Não criticar, mas olhar com amor.

Você consegue viver da sua arte hoje, ou além dos trabalhos artísticos trabalha em outros lugares?
É difícil viver de arte no Brasil, ainda mais sendo transexual. Eu trabalho em uma farmácia de manipulação há 11 anos e na The Week também como artista, então paralelo ao teatro e o Municipal, tenho ainda essas duas fontes de renda.

Acho que as pessoas precisam buscar conhecimento para entender a diferença de um artista que está realizando uma performance vestido como mulher e identidade de gênero

Quais são os projetos que está desenvolvendo no momento? Tem alguma peça que tem data de estreia?
Estou em uma peça, o Incrível Mudo dos Baldios, que estreia 18/02, 21h, no teatro dos Satyros 1, que fala sobre a esquerda, refugiados, presidiários, transexuais. Eu faço uma personagem incrível que representa o milagre de acreditar em mim mesma. Essa peça veio como um presente! Estou fazendo Pink Star, que é uma outra peça do Satyros que estreou em setembro, e já fui escalada para outra peça dos Satyros em seguida, a Transex.

Além disso, estou realizando o sonho da minha vida de interpretar Maysa em Chão de Estrelas, baseado na obra O legado deixado por Maysa Matarazzo. A minha montagem foi autorizada pelo seu filho, Jaime Monjardim, e estreia 28/02 na SP Escola de Teatro. Vou apresentar as canções, poemas e escritas de Maysa. É uma peça com muito sentimento, é muito eu, nosso sentimento é muito ligado pela sua  história sobre o amor, sucesso e carreira. Me identifico muito com esta frase dela:  “eu não me importo porto com que as pessoas dizem, eu só quero que elas me ouçam”.

Foto: Rogério Gomes