Mariana Pacor: (r)existência lésbica na história da arte

Por Marcela Reis*

Você consegue pensar em três artistas visuais homens que são conhecidos? Essa é bem fácil! E três mulheres? Fica um pouco mais difícil, mas ainda dá pra responder. Mas e se eu perguntar se você conhece três artistas visuais lésbicas?

Imagino que essa seja difícil… então vou ajudar: você conhece a Tee Corinne? Ou a Nancy Fried? E a Pratibha Parmar? Talvez algumas de vocês já tenham ouvido falar, mas poucas devem conhecer seus trabalhos a fundo. E uma dessas pessoas é a Mariana Pacor, que também é uma artista visual lésbica. Aliás, você conhece Mariana Pacor?

Arte-educadora, pesquisadora de arte, poeta e carioca. Formada em Artes Visuais pela Unesp, Mariana começou a desenhar quando pequena — sem saber ao certo com qual idade —, e nunca mais parou. Já seus primeiros poemas vieram antes da puberdade, quando teve sua primeira paixão. Depois disso, vieram aulas de violão e de piano, e Mariana foi crescendo junto com as artes. Ela conta que esse seu anseio veio da necessidade de falar, de pôr pra fora coisas que tinha e tem dentro de si. E quando questionada sobre qual seu significado particular para a arte, diz que “arte significa silêncio; significa poder significar qualquer coisa; significa poder dizer sem dizer de fato; significa dizer só pra quem você sabe que entenderá”.

Mariana Pacor, artista visual que pretende construir um arquivo de artistas lésbicas brasileiras

A maior parte da produção de Mariana é em cerâmica, mas ela também faz muitas intervenções urbanas, que diz que “estão por aí, se divulgam sozinhas e ninguém precisa saber que fui eu que fiz. Eu confio nas minhas intervenções”. Apaixonada pela contracultura, ela não acredita no mercado da arte e defende que “a arte deve circular pelas mãos das pessoas e não ficar pendurada na parede”. Sua arte é sobre lésbicas e é para lésbicas, todo o seu trabalho é muito político e muito engajado.

Uma das metas de vida de Mariana é construir um arquivo de artistas lésbicas brasileiras, coisa que ainda não existe no país. Ela conta que existem algumas dificuldades durante a pesquisa, porque tem poucas produções em português e agora que as feiras de arte lésbica começaram a circular pelas regiões. Mas há muitas artistas contemporâneas produzindo arte lésbica, então a ideia é produzir memórias e registros delas.

Mas afinal, o que é arte lésbica?

Essa pergunta parece fácil no primeiro momento, mas se fizermos outros questionamentos a resposta parece cada vez mais difícil de encontrar. Toda artista lésbica produz arte lésbica? Mas e se não se tratar de arte que fala sobre lesbianidade? Quem não é lésbica também produz arte lésbica se fala sobre duas mulheres se relacionando?

Mariana sempre retrata a lesbianidade em suas obras

Mariana diz que todas essas perguntas são muito delicadas e que ela não as respondeu por completo até hoje. Mas para ela a arte lésbica se divide em duas grandes categorias: arte de engajamento político, que trata da lesbianidade; e a arte produzida por artistas lésbicas, mas que não tem a pretensão de tratar do tema em si. Isso também carrega outros questionamentos, porque ‘arte lésbica’ é um termo novo, que surgiu na década de 1970. Sendo assim, tudo o que veio antes é arte lésbica também?

Adrienne Rich, escritora lésbica nascida nos Estados Unidos em 1929, pode nos ajudar nessa questão. A autora cunhou o termo ‘lesbian continuum’ (continuum lésbico), que buscava identificar a lesbianidade no percurso da história, para tirar as lésbicas do isolamento e da subjetividade. A ideia foi identificar as lésbicas como um grupo que se relaciona e se articula. Antes do século 19 ninguém se afirmava lésbica, então como traçar esse histórico nos tempos antigos? A partir da vivência dessas mulheres, de seus relacionamentos com outras mulheres e do impulsionamento e do suporte dado a outras mulheres, é possível enquadrá-las no ‘continuum lésbico’; porque isso não “tira ninguém do armário”, só as coloca na luz da história como mulheres que se articularam afetivamente e também em rede.

Arte significa silêncio; significa poder significar qualquer coisa; significa poder dizer sem dizer de fato; significa dizer só pra quem você sabe que entenderá

A pesquisa de Mariana é traçada a partir da teoria de Rich, seu desejo é reproduzir o ‘continuum lésbico’ na história da arte, porque descobriu na lesbianidade um campo imagético e histórico. Ela explica que arte lésbica é aquilo que é produzido por uma mulher lésbica, mas que isso não exclui a função social que algum trabalho feito por alguém que fuja dessa categoria tem. Artistas heterossexuais podem produzir sobre o relacionamento entre duas mulheres, isso é arte de temática lésbica; mas a vivência é algo que só uma lésbica pode exprimir e dar à luz a um trabalho.

As três artistas visuais lésbicas que foram citadas no começo do texto são os maiores exemplos de Mariana. Tee Corinne (EUA, 1943-2006) foi uma fotógrafa, escritora e editora reconhecida por suas obras que tratam de lesbianidade e afetividade.

Sinister Wisdom, de Tee Corinne

Nancy Fried (EUA, 1945) é uma escultora que retrata mulheres em experiências dolorosas e muitas vezes autobiográficas, como a mastectomia.

Self-Portrait, 1989, de Nancy Fried

Pratibha Parmar (Quênia, 1955) é cineasta e escritora, que dirigiu documentários de temática lésbica, como Nina’s Heavenly Delights (2006) e Alice Walker: Beauty in Truth (2013).

Cena de Nina’s Heavenly Delights (2006)

Qual o maior ganho e a maior dificuldade em ser lésbica e produzir arte lésbica? Para ela “os dois são a mesma coisa, a melhor parte e a parte mais difícil é justamente tratar da lesbianidade. Porque a arte lésbica sempre vai correr pelas bordas, ser marginal. A lesbianidade não é (e não será) um grande tema da arte, seu grande tema é o formalismo e a estética”. Mas o tema de Mariana é existir, se colocar no mundo e tratar da lesbianidade com consciência política. Afinal, para ela, a arte lésbica são criptografias para o futuro, é um mapa do tesouro de uma lésbica para a outra; você precisa vivenciar para saber decodificar e continuar esse legado.

*Marcela Reis é jornalista, lésbica, amante das artes e de tudo aquilo que inspira luta e resistência.