Mulamba, o grito de vozes femininas silenciadas

De origem angolana, mulambo é uma palavra surgida no período da escravização para falar daqueles que usam peças rasgadas, fora do padrão esperado socialmente. Assim pode ser definida a banda Mulamba: composta apenas por mulheres, o grupo curitibano está longe de cantar o permitido ao gênero feminino.

Porque homem maltrata o ventre que lhe pariu?
Feminino não criou bomba, nem guerra, nem fuzil
Então porque o homem mata o ventre que lhe pariu?
Espia Escuta

Formada por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão), o grupo ficou conhecido com o single P.U.T.A, que teve mais de 2,6 milhões de acessos no youtube! Em novembro de 2018 a banda lançou seu primeiro álbum, Mulamba. As canções, que vão do rock ao MPB, passando pelas batidas do funk, abordam de forma muito honesta temas como amores, amizade, família, desigualdade de gênero e problemas sócio-políticos. “Somos instrumentistas, compositoras, intérpretes, arranjadoras e esse disco é um alargamento de cada uma”.

Com o lançamento desse importante trabalho para a nova música popular brasileira, a banda recebeu diversas críticas, a maioria positiva, foi indicada à categoria de Melhores instrumentistas no Women’s Music Event 2018 e está na lista da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como um dos melhores 25 lançamentos do segundo semestre de 2018. Incrível, né?

Em janeiro, a banda faz um show de lançamento do álbum no Sesc Pompeia. Conversamos com a Fernanda Koppe, o violoncelo da Mulamba, para conhecer mais sobre a trajetória delas e os próximos passos do grupo. Quer saber também? Vem com a gente!

Foto: Luciana Petrelli

A banda existe desde 2015, mas o lançamento do single que as tornou conhecida foi feito após um ano da banda. Agora, depois de três anos de estrada, como a banda se enxerga  e se projeta no cenário musical alternativo do Brasil?
Estamos no início da caminhada, ainda temos muita coisa pra estudar, vivenciar, aprender e desenvolver. Depois do lançamento do álbum, as surpresas positivas estão sendo constantes, cada dia mais pessoas conhecem nosso trabalho, ouvem com atenção, indicam, espalham esse som. Queremos continuar fazendo o que amamos e também acessar lugares que ainda não chegamos, projetamos descobertas, sempre.

Sentimos um levante cada vez maior, a busca por algo que foi nos tirado por muito tempo, outra forma de olhar as mulheres. É uma luta constante, mas estamos nos unindo.

Ouvindo o álbum notamos uma mistura de ritmos, mas todos convergindo pra uma pegada mais rock. É esse o ritmo que as integrantes mais se identificam?
Sabe que essa é uma pergunta que fazemos pra nós mesmas? É engraçado porque às vezes chegamos com ideias diferentes, mas quando percebemos já estamos lá “batendo cabelo”. Nos identificamos com muitos ritmos, cada uma da banda com seu jeitinho, sua preferência, sua escola de vida em estilos musicais diferentes, e isso faz com que muitas ideias se expandam com referências que vem de lugares onde nem imaginávamos. É lindo, pois crescemos e ampliamos nosso conhecimento musical muito umas com as outras. E nunca se sabe, pode ser que um dia a gente produza um álbum mais voltado pro rap, ou funk, ou tango, ou forró, enfim, não vemos barreiras quanto a isso, é tudo uma questão de tempo, momento, vontades e explorações.

Fale um pouco do processo de gravação do álbum. As composições foram em conjunto? A escolha dos temas das canções, sempre voltados de certa forma às questões femininas, foi um consenso ou algo casual?
Esse processo foi lindamente conduzido por Érica Silva que dedicou dias e noites para fazer esse disco uma realidade. Ela trabalhou nos arranjos com uma dedicação, carinho e profissionalismo que é de se admirar em qualquer trabalho, além de fazer um cronograma onde tudo se encaixou e fluiu lindamente. Nos ensaios coletivos, cada instrumentista, no seu instrumento colaborava de alguma maneira e a gente foi lapidando cada composição até chegarmos ao que tá gravado. As composições das letras vem da Cacau e Amandinha de forma natural, sem consensos gerais sobre o que temos ou queremos falar.

 Acreditam que o cenário para mulheres artistas vem mudando nos últimos anos?
O cenário para as mulheres vem mudando, não só para artistas. Sentimos um levante cada vez maior, mais forte, mais real, uma busca por algo que foi nos tirado por muito tempo, outra forma de olhar e respeitar as mulheres. É uma luta constante, mas nós estamos nos unindo e quando entendermos o potencial da nossa força em conjunto, poderemos transformar o mundo, sempre com muito amor.

 Pra vocês, qual a importância da resistência artística em tempos tão conturbados politicamente como o que vivemos e viveremos?
A arte consegue comunicar, despertar senso crítico, trocar, conversar de forma direta mesmo que indiretamente. Agora estamos entrando numa fase delicada onde muitas pessoas já estão sentindo o reflexo desse novo governo, enquanto outras não, porque talvez sua vida só melhore mesmo. A resistência artística quebra muros, a arte faz com que multidões, independente de quem esteja ao seu lado, vibre na mesma frequência, ouça, veja, entenda que existem sim outros mundos, outras pessoas além daquela bolha.

Quais são suas referências de artistas mulheres?
Elza Soares, Cássia Eller, Esperanza Spalding, Rita Lee, Janine Mathias, Dona Onete, Silvia Perez Cruz, Jacqueline du Pré, Érica Silva, Lan Lahn… Para mim essa lista é interminável.

Já temos agenda de show para 2019?
Temos sim! O primeiro show do ano será no Sesc Pompéia, dia 18 de janeiro em São Paulo, em seguida, dia 26, tocamos em Curitiba no Sesc Paço da Liberdade. Teremos Psicodália em Rio Negrinho no carnaval e mais umas surpresinhas nesses meios. Divulgaremos tudinho nas nossas redes sociais, então é bom todo mundo acompanhar pra não perder!

(Arte da capa: Katia Horn)