Mulheres Radicais: artistas desafiando a opressão através da arte

Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, que está em exibição na Pinacoteca do Estado de São Paulo desde o dia 18 de agosto, reúne obras de mais de 120 artistas mulheres latino-americanas. O recorte cronológico da produção artísticas dessas mulheres não foi escolhido aleatoriamente, e é decisivo para história da América Latina, para construção da arte contemporânea e para as transformações acerca da representação simbólica e figurativa do corpo feminino. Essa linha do tempo que perpassa as mais de 280 obras apresentadas em diversas plataforma, são marcadas por períodos de ditaduras e regimes políticos opressores.

Aos olhos do público mais jovem, possíveis frutos da primavera feminista e que não viveu a ditadura militar brasileira, as obras podem até parecem pouco radicais. Mas é preciso levar em consideração a dificuldade da arte feminina ocupar espaço em qualquer período histórico: imagine só em meio a um governo opressor e fortemente marcado pelo poder patriarcal? O resultado da intolerância do Estado é a criação de trabalhos que denunciam a violência social, cultural e política da época. É essa a linha que conecta a produção de artistas tão diversas e de diferentes panoramas culturais.

A exposição está dividida em nove temas: paisagem do corpo, trabalhos que estabelecem uma relação entre a natureza, a terra e o corpo; autorretratos que desafiam a estereotipização da mulher; mapeando o corpo, onde há a desconstrução e redescoberta do corpo feminino; feminismo, com obras de artistas auto intituladas feministas; poder das palavras, onde a palavra escrita representa experiências com opressão e machismo; resistência e medo, mostra a relação entre a violência e o medo das políticas opressoras; lugares sociais, revela o outro e a tentativa de dar voz a grupos marginalizados; o corpo, onde as artistas usam o corpo como meio; e o erótico, última seção da mostra.

Auto Retrato de Marie Orensanz (Argentina)

A principal proposta da exibição é mostrar o quão essas artistas foram decisivas para a formação da expressão artística da América Latina, mas, mesmo assim, grande parte delas se quer são conhecidas em seus países. Algumas das artistas brasileiras presentes são Wilma Martins, Yolanda Freyre, Maria do Carmo Secco e Nelly Gutmacher – que foram incluídas exclusivamente na mostra de São Paulo. Quantas delas você conhece?

A exposição tem curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta, e já foi exibida em Los Angeles e em Nova York. São Paulo é a única cidade da América Latina a recebê-la. “O Brasil foi único país da América Latina a receber a mostra porque a Pinacoteca de São Paulo era a única instituição capaz de recebê-las por diferentes motivos: era a única instituição capaz de arcar com os gastos, e era a única com um time de profissionais capazes lidar com uma exposição enorme e complicada como esta. E também era a única instituição comprometida com o principal propósito da exibição, dar visibilidade a mais de centenas de artistas que não eram muito conhecidas em seus países”, contam as curadoras.

O fato de uma mostra de arte que fala da América Latina, produzida por artistas latino-americanas, ser recebida apenas em uma cidade latina é muito sintomático e revela que precisamos evoluir muito na valorização das nossas artistas e da nossa história da arte. Como comentam as curadoras quando questionamos se o Brasil demonstrou mais empenho em receber as obras: “nós achamos que o Brasil teve sim muito interesse na exibição, e que, provavelmente, o resto da América-Latina ainda está muito próxima as ideias patriarcais sobre arte, e não estão abertos a conhecerem além do padrão vigente, que é patriarcal, branco e classista”.

Biscoito Arte de Regina Silveira (Brasil)

Artistas Brasileiras que participam da exibição 
Mara Alvares (1948); Claudia Andujar (Suíça, 1931); Martha Araújo (1943); Vera Chaves Barcellos (1938); Lygia Clark (1920–1988); Analívia Cordeiro (1954); Liliane Dardot (1946); Lenora de Barros (1953); Yolanda Freyre (1940); Iole de Freitas (1945); Anna Bella Geiger (1933); Carmela Gross (1946); Nelly Gutmacher (1941); Anna Maria Maiolino (Italy, 1942); Márcia X. (1959–2005); Wilma Martins (1934); Ana Vitória Mussi (1943); Lygia Pape (1927–2004); Letícia Parente (1930–1991); Wanda Pimentel (1943); Neide Sá (1940); Maria do Carmo Secco (1933); Regina Silveira (1939); Teresinha Soares (1927); Amelia Toledo (1926–2017); Celeida Tostes (1929–1995); Regina Vater (1943);

O que? Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985
Quando? 18/08 a 19/09. Quarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30 – com permanência até às 18h
Onde? Pinacoteca| Praça da Luz 2, São Paulo
Quanto? R$3 a R$6, com entrada gratuita aos sábados