O corpo de Luedji Luna no mundo

Voz forte, poderosa, grave, que preenche o espaço ao ser ouvida: essa é a primeira impressão ao escutar Luedji Luna (lê-se Luédi Luna). A cantora e compositora baiana que tem nome de rainha angolana cresceu cercada de música e sempre cantou, mas só aceitou se entregar (e se arriscar) de corpo e alma na carreira artística aos 25 anos.

Cinco anos depois, três deles vividos em São Paulo, a artista lança Um corpo no mundo, álbum que ultrapassa fronteiras carregando sonoridades brasileiras e africanas, bem como composições que falam de solidão, genocídio da população negra, o sentimento de não-pertencimento na cidade, entre outros assuntos discutidos pelo movimento negro.

A artista que canta sua vida conversou com o Guia Maria Firmina e falou sobre seu processo criativo, a produção do álbum (que está disponível no Spotify), sua relação com a música e muito mais.

Foto: Divulgação

Você sempre quis ser cantora? Desde quando a música está na sua vida?
Eu sempre cantei, desde criança a música foi muito presente na minha casa. Apesar de meus pais não serem músicos, sempre fui rodeada de música. Mas tive uma época de negação, por insegurança e medo mesmo, por ser uma carreira muito instável. Daí com 25 anos eu decidi me profissionalizar, comecei a fazer minha primeira aula de canto, na Escola Baiana de Canto Popular, e não parei desde então.

Como foi o processo de criação do álbum Um corpo no mundo?
Eu vim morar em São Paulo e escrevi a música Um corpo no mundo, que foi o que conduziu toda a história da minha carreira. Eu a escrevi porque saí de Salvador, cidade mais negra fora de África, e vim parar em uma cidade que me senti muito sozinha, não só pela distância e pela saudade, mas também por não me enxergar em uma cidade que se embranqueceu, diferente da minha.

Além disso, chegando em São Paulo eu dei de cara com a imigração. Ver esses corpos negros tão próximos a mim mas ao mesmo tempo tão distantes porque não eram do mesmo país que o meu, fez surgir uma série de questionamentos sobre o que é ser brasileiro, o que é ser negro no Brasil, de qual lugar de África eu poderia ser, já que sou tão parecida com eles mas não posso saber de onde vim… Foi uma inquietação real e a partir dela, de algo que afetava minha vida, que eu estava vivendo, é que surgiu a canção e toda essa história. Eu canto minha vida.

Eu criei a música, depois fiz um show em cima dela, um clipe, e fui apresentando esse show em vários lugares em Salvador e São Paulo, circulando por dois anos e apresentando as outras músicas que criei a partir da primeira. Fui testando nos shows que fiz por São Paulo a receptividade do público. A partir disso fui construindo um público, mesmo sem o disco. Chegou um momento em que as pessoas começaram a demandar por esse material, e eu também, por querer materializar essa história que eu vinha contando. Lancei um Catarse mas mesma época fui contemplada com o Prêmio Afro, que permitiu que eu realizasse o álbum sem precisar do financiamento coletivo.

O disco teve produção de Sebastian Notini, músico sueco radicado na Bahia, com arranjos de guitarra do queniano Kato Change, violão de François Muleka, filho de imigrantes congoleses, baixo elétrico e acústico do cubano radicado em São Paulo Aniel Somellian, e percussões do baiano Rudson Daniel e Sebastian Notini. É um disco que tem referências e influências de diversos cantos, conseguimos que a identidade de cada pessoa que ajudou a criar os arranjos estivesse presente no resultado final, então é um disco sem fronteiras sonoras.

Sua música é carregada de ancestralidade, seja nas referências ao candomblé, seja nos ritmos afro-brasileiros, seja nas letras que tratam sobre o genocídio do povo negro ou da diáspora africana. Pra você qual a importância de cantar o passado de seu povo?
Na verdade, quando eu componho eu tento tornar o processo da minha composição o mais natural possível, então não é algo que eu penso “vou compor sobre isso”, sabe? O que eu faço, o que eu escrevo, é a minha leitura do mundo e o efeito desse mundo sobre o meu corpo, minha vida, minha vivência. Então se vem o tema do genocídio, da solidão, das crises identitárias de um povo, é porque são coisas que me afetam primeiro individualmente. Estou criando essa possibilidade de existir enquanto compositora e cantora preta podendo falar das questões que me são caras. Mas não é nada racional.

Componho a partir desse corpo de mulher, preta, da diáspora. Escrever e cantar é meu jeito de estar no mundo, é como meu espírito se expressa e é a minha possibilidade de existir

Você consegue perceber uma mudança de cenário para as mulheres negras artistas nos últimos anos?
Eu consigo perceber sim, e acho que a internet é um poder que tem determinado muita coisa. O que antes era ditado pela mídia convencional, a internet vem na contramão, possibilitando que outros discursos possam existir. E nisso vem as mulheres negras e sua força: Tássia Reis, Linn da Quebrada, As Bahias e a Cozinha Mineira, eu… Somos artistas que ganhamos projeção por conta da internet. Fora a militância, né? O ativismo digital/virtual que acaba gerando mudanças na vida prática. Acredito que estamos avançando sim e que precisamos usar essa ferramenta o máximo possível a nosso favor, para que todas nós, mulheres negras, possamos realizar nossos sonhos.