O corpo-resistência de Linn da Quebrada

Bicha, travesti, preta e periférica que está descobrindo as possibilidades de existência e resistência no mundo. Assim podemos definir Linn da Quebrada, artista que aos 27 anos canta suas experiências e ocupa, mesmo que na marra, espaços negados a ela no país que mais mata travestis e transexuais no mundo.

A carreira da artista na música começou em 2016, com os lançamentos dos singles Enviadescer e Talento. As músicas foram lançadas no Youtube – hoje os dois clipes contam com quase 800 mil visualizações – e depois disponibilizadas em plataformas de streaming como Spotify, Deezer, Apple Music e Google Play.

Amar, criar laços, sentir e viver nossos afetos e desejos é sobreviver em um mundo onde isso nos é proibido. É sobrevivência como (r)existência.​

Criada no interior de São Paulo até a adolescência, Linn da Quebrada cresceu como testemunha de Jeová, religião que a renegou aos 17 anos, idade em que se montou e se vestiu com roupas femininas pela primeira vez. Morando na capital com a mãe, a moradora da Fazenda Juta, bairro periférico da zona leste, notou que a música, especialmente o funk, transmitia mensagens para seus ouvintes e encontrou na música uma forma de expor sua realidade e ser ouvida, até mesmo dentro da própria comunidade LGBT. “Eu falo de mim, mas em essência falo também de várias questões ligadas ao feminino e ao que sinto dentro da comunidade TLGB. Solidão, erro, afeto, corpos preteridos, eu queria um novo vocabulário para tudo isso”.

Bixa travesty
De um peito só
O cabelo arrastando no chão
E na mão, sangrando
Um coração
Trecho da música Bixa Travesty

O primeiro disco da cantora, Pajubá, foi lançado em outubro de 2017, a partir de financiamento coletivo. Com direção da produtora Badsista, o trabalho é definido por Linn como um disco de afro-funk-vogue, com elementos sonoros vindos de diversas partes do mundo e dialogando com as tendências da música eletrônica mundial. O álbum tem participação de Liniker, Glória Groove e Mulher Pepita, além da parceira inseparável Jup do Bairro, presente em todos os shows da cantora.

“Era um Lemonade Transvyado que vocês queriam, meninas?” Surpreendendo as fãs como fez Beyoncé com seu álbum Lemonade, o lançamento de Pajubá nas plataformas digitais contou também com a estreia do álbum visual, composto com 14 clipes produzidos de forma independente.

Ao Guia Maria Firmina, Linn da Quebrada fala um pouco sobre o processo de criação de seu primeiro álbum, o papel da arte em sua vida e na sociedade, projetos futuros e mais. “Minha música é o jeito que encontrei para sustentar em mim a força desse feminino e ao mesmo tempo provocar um novo imaginário e novas potências para corpos feminilizados. Estivemos sempre de joelhos dobrados nessa sociedade, senão diante da oração, da ereção. No meu trabalho eu refaço tudo isso: tiro o macho do centro e dou o foco total ​aos ​corpos ​de ​essência ​feminina ​e ​a ​seus ​desejos”.

Você despontou e lançou seu primeiro álbum em 2017, mas desde quando está na cena musical? Sempre teve o sonho de ser cantora?
​Comecei a cantar por volta de 2015, foi ali que passei a compor cada vez mais. Foi um passo natural, eu já estava envolvida com arte, venho do teatro, né? Então depois disso passei a escrever músicas pra desafogar algumas coisas que tinha dentro de mim e em 2016 lancei meus primeiros singles. De lá pra cá me envolvi na música cada vez mais e no momento estou cantora, divulgando Pajubá, rodando o país com a tour desse disco. A música foi uma grande descoberta em minha vida.

Foto: Nube Abe

Como foi o processo de criação de Pajubá? O álbum foi indicado como um dos melhores discos do segundo semestre de 2017 pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Como é ver um trabalho realizado a partir de financiamento coletivo conquistar um espaço como esse?
Pajubá
foi uma construção coletiva, minha, com minha equipe e as fãs. Sem as fãs esse álbum não existiria. Ter conseguido gravar um álbum via financiamento coletivo foi um momento importante pra mim, vi que realmente não estava sozinha. As músicas de Pajubá eu escrevi pra mim, mas sei que de alguma forma elas alcançaram muita gente. Eu o criei como arma e antídoto pra mim, mas ecoou de uma maneira muito bonita quando saiu. Ter sido indicada nestes prêmios, ainda que não fosse o objetivo, foi muito especial de ver acontecer. Reinventei uma linguagem, subverti a lógica falocêntrica e as pessoas vieram junto, é demais.

Pajubá pode ser considerado um álbum político? Lemos em alguns lugares onde você diz que o disco é sobre você e suas afetividades, porém, as canções falam pouco de amor. O que isso significa?
As canções não falam pouco de amor, elas só falam de amor de uma maneira diferente, que foge ao que esperamos desse amor status-quo voltado ao macho. São afetos de corpos feminilizados, preteridos, acostumados a amar pelos cantos. São desses amores que escrevo e canto sobre, minhas músicas falam dessas potências, pra essas pessoas. É um disco de resistência também, porque amar, criar laços, sentir e viver nossos afetos e desejos é sobreviver em um mundo onde isso nos é proibido. É sobrevivência como (r)existência.​

Capa do álbum Pajubá, lançado em 2017

Em algumas canções como Dedo Nucué você fala de sexo de forma explícita, o que poderia incomodar alguns ouvidos. Mesmo assim, as músicas continuaram explícitas até nas plataformas digitais. Acredita que a arte tem o papel de ser provocativa?
​A arte tem o papel de tirar da zona de conforto. Se as pessoas não estão acostumadas a esse tipo de letra nunca foi uma preocupação minha, eu escrevo em cima daquilo que vivo, daquilo que minhas meninas vivem, do que vejo ao meu redor. Elas são explícitas por que contam uma história que ninguém queria ouvir? Pajubá é isso, criação de narrativa, é um álbum que fala de vivências e suas possibilidades, a partir do nosso ponto de vista. A arte é nossa ferramenta pra essa tomada de perspectiva. ​

Quais são suas referências de mulheres na música?
​Ouço muitas coisas, sou influenciada por muita gente. Das que vieram antes como Elis Regina e Elza Soares as que vem agora, como Flora Matos, Ava Rocha e Tássia Reis, me encontro nas vozes de muitas mulheres.​

Quais são os projetos para 2018? Tem algum trabalho em processo que pode nos contar?
Este ano a gente começa indo pra Europa, agora em fevereiro. Além de divulgar o filme Bixa Travesty* no Festival de Berlim, eu e minha gangue vamos esticar pra outros países e cidades com a tour de Pajubá, vamos botar esses gringos pra dançar! Mas calma minhas meninas, depois eu volto com mais shows e outras novidades deliciosas, viu?

*Dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, o documentário Bixa Travesty, que conta a história de Linn e como ela enfrenta o machismo e a transfobia, foi selecionado para a Mostra Panorama do 68º Festival de Berlim, um do mais importantes festivais de cinema do mundo.

(Foto de capa: Filipa Aurelio)