O pessoal é político: Maria Auxiliadora e o retrato da vida como resistência

Maria Auxiliadora foi uma artista negra que trabalhou como empregada doméstica, bordadeira e pintou seu primeiro quadro aos 26 anos de idade. Após décadas sem exposição individual, a artista retorna ao MASP, onde teve sua última grande mostra que aconteceu em 1981.

Nascida em Minas Gerais, Auxiliadora mudou-se aos 12 anos para São Paulo e em seus trabalhos representa o dia a dia familiares e amigos na Brasilândia e Casa Verde, além de muitas temáticas afro-brasileiras. A capoeira, o samba, a umbanda, o candomblé e os orixás são manifestações sempre presentes em seus trabalhos.

Representação de Orixás, relevos e a utilização do próprio cabelo nas pinturas são algumas das marcas da artista

A obra de Maria Auxiliadora questiona o modelo de arte eurocêntrica presente na história da arte brasileira. Quando as críticas de arte classificam suas criações como Arte Naïf ou Arte Primitiva, diminuem a complexidade de sua obra genuinamente brasileira, conectada com sua ancestralidade e brasilidade.

Longe dos conceitos acadêmicos e modernistas, a artista autodidata de origem humilde e descendente de escravizados, inventa um outro modo de pintura. Misturando tinta óleo, massa plástica e mechas de seu próprio cabelo, Auxiliadora criava relevos em sua telas coloridas, além de inserir balões de diálogos comuns em histórias em quadrinhos, aprofundando assim o diálogo de suas criações com a pop art.

As pinturas da artista são repletas de relevos, balões de diálogo e cores, dialogando com a cultura popular

Em um contexto em que as coleções de museus são dominados por representações e gostos eurocêntricos, brancos e elitistas, a obra de Auxiliadora ganha o sentido de resistência.

Composta por 82 pinturas, a exposição está organizada em sete núcleos, pautados nos grandes temas presentes nas obras da artista. No núcleo Candomblé, umbanda e orixás concentram-se os trabalhos religiosos da artista. O tema é central em sua obra, ainda mais quando lembramos que, no Brasil, parte da resistência negra se estruturou por meio dos cultos religiosos de matriz africana.

Manifestações populares apresenta as procissões e as festas juninas, a capoeira, o bumba meu boi, o carnaval de rua, o samba, os botecos, os bailes de gafieira. Em Autorretratos, a própria Maria Auxiliadora se coloca nos papéis de artista, em plena atividade, mas também de noiva ou de enferma – aos 39 anos, faleceu em decorrência de um câncer.

Velório da noiva, 1974, integra o núcleo Autorretratos da exposição | Foto: Eduardo Ortega

Em Casais, uma de suas maiores obsessões, o enfoque é o cortejo e a conquista, refletindo, assim, sua perspectiva romântica. Em Rural, reúnemse imagens do trabalho e da vida no campo. Urbano, por outro lado, traz cenas em parques de diversões, praça, bar, cinema e escola. Por fim, no núcleo Interiores, o cotidiano é registrado e celebrado em situações marcadas pelo afeto e pela intimidade, especialmente em reuniões realizadas entre mulheres.

De que modo a arte pode representar outras culturas, que não as dominantes? O trabalho da artista propõe uma resposta para qualquer museu que deseja ser relevante no contexto sócio-político em que se encontra inserido.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Fernando Oliva, curador do Museu, a exposição propõe um debate sobre a necessidade da construção de outras narrativas na história da arte, que inclua artistas excluídos pelos cânones da cultura branca e ocidental.

Retrato da artista autodidata | Foto: Divulgação

O que? Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência
Quando? 10/3 a 3/6. Terça-feira a domingo, 10h às 18h
Onde? MASP – Avenida Paulista, 1578
Quanto? R$17 a R$35. Entrada gratuita às terças-feiras
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