(Re)conhecendo a Amazônia Negra: uma história de encontros

Se você fechar os olhos e imaginar a Amazônia, provavelmente vai pensar nas árvores, nos animais, na floresta, nos índios… Onde está o negro nesta história? Mais especificamente, onde está sendo contada a história do negro em Porto Velho, Rondônia, na região Amazônica? A Amazônia é Negra?

Marcela Bonfim, fotógrafa, ou melhor, mulher negra, como ela mesma prefere se afirmar, saiu em busca dessas respostas, registrando a história e as feições dos corpos negros residentes na Amazônia. O trabalho que começou de forma despretensiosa se tornou uma grande surpresa, e hoje ocupa o Centro Cultural da Caixa Econômica, na Praça da Sé, até dezembro.

A exposição conta com mais de 50 fotografias e um vídeo. Ao entrar na galeria, no hall esquerdo, está um altar de fé, montado pela própria artista para colocar seus fotografados como entidades. Todas as fotografias podem ser tocadas, mas é o olhar, presente em grande parte dos retratos, que toca o público. Talvez essa sensação seja um vestígio do sentimento da artista, que por trás das lentes de sua câmera se enxerga naquilo que retrata.

Marcos e o seu olhar

Retratar também significa refletir-se, espelhar-se. O processo de criação do que se tornou o projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra, foi na verdade um processo de busca e reconhecimento de uma mulher negra que por muito anos não se viu assim. A economista Marcela, foi a Rondônia em busca de um emprego, e através de suas fotografias amadoras encontrou suas raízes e até mesmo uma nova e possível família. “Falar da Amazônia Negra é simplesmente falar de uma Rondônia desconhecida, de um Brasil que não se discute. É nos trazer para o centro do debate”.

O autodescobrimento foi o caminho que guiou todo o trabalho. Expor a sua arte em um centro cultural como o da Caixa, em São Paulo, nunca foi uma aspiração. “Eu, a fotografia e a Amazônia foi um grande encontro, um processo muito efervescente, conflituoso e muito transformador, ao passo que fui me descobrindo e descobria essa Amazônia Negra ao mesmo tempo”.

A janela dos olhos de Catarina, Quilombo de Pedras Negras

Mesmo que se tornar uma artista não tenha sido o grande objetivo dessa empreitada, Marcela reconhece a importância de ser uma artista negra. “Estar na arte é importante porque é ela que nos coloca nesse lugar de destaque, nos tira da invisibilidade em que o Brasil nos colocou por muito anos. Entrar nas artes visuais é sair desse corpo marginalizado e entrar em um lugar de destaque como protagonista. Me colocar como fotógrafa é importante, mas me colocar como mulher negra é mais importante ainda”.