Renata Carvalho – A mulher Jesus Cristo

Uma atriz extremamente apaixonada pelo seu trabalho, que vai ao teatro todos os dias para ele nem ousar se esquecer dela, que existe por causa dele. Essa é Renata Carvalho, que há 22 anos está no teatro, e há 22 anos os cisgêneros tentam tirar aquilo que para ela significa tudo.

Renata é dona de um corpo alto, magro e lindíssimo, todo seu. Aos olhos do outro é um corpo que incomoda, um corpo doente, e é por isso que tentam tirá-la de cena. A atriz começou a carreira como ator, mas quando percebeu que vários papéis eram negados por conta da sua feminilidade, passou a ser diretor e produtor. Este período durou dez anos, o tempo que passou pela transição de gênero.

Foi expulsa de casa, teve depressão, e por não encontrar nenhuma oferta de trabalho que aceitasse o seu corpo, se viu obrigada a vendê-lo para aqueles que à luz do dia também o negavam. Foi cabeleireira, maquiadora e como agente voluntária de prevenção de IST (infecções sexualmente transmissíveis), Hepatites e tuberculose,  junto a outras travestis e transexuais, empoderou-se na militância. Voltou aos palcos com o monólogo Dentro de mim mora outra, desde então muitos ainda tentam ofuscar o seu brilho – quase todos em vão.

Renata ficou nacionalmente conhecida por representar  ninguém menos que Jesus Cristo, na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que desde 2016 quando estreou,  vem sendo atacada por todos os lados da sociedade. Algumas sessões chegaram até serem canceladas, outras tiveram que contar com policiais no local para garantir a integridade física da atriz.

Nada disso a fez descer do salto. É uma mulher que, assim como muitas, não têm outra opção a não ser a luta, da qual ela já deixou claro que não tem medo. Fundadora do Coletivo T, voltado apenas a artistas transgêneros, participou da criação do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), que luta pela representatividade em espaços da arte.

Nós do Guia Maria Firmina tivemos o prazer de assistir ao disputadíssimo espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que lota todos os lugares por onde passa, e de entrevistar  Renata Carvalho.

O teatro foi o único lugar do mundo onde eu conheci a palavra amor

O que a arte representa para você?
A arte mudou tanto a minha vida! Eu acredito que a arte pode abrir corações, abrir mentes, quebrar preconceitos, quebrar estigmas. A arte me salva, sempre me salvou, está me salvando agora e vai continuar me salvando para o resto da vida. Me tirem tudo, menos a arte, menos o teatro.

Te salvou como?
Como pessoa, como humana, me mostrou o que eu vim fazer no mundo. Me salva no sentido de ter me ajudado a entender o  mundo, a exclusão, a minha história… E entender que essa exclusão é estrutural e não uma culpa da Renata. A arte me empodera no sentido de me deixar falar do meu corpo.

Qual a sua relação com o teatro?
O teatro foi um momento de transformação. Ele é o lugar mais democrático que eu conheço, pena que os artistas cisgêneros não sabem disso. O teatro foi o único lugar do mundo onde eu conheci a palavra amor. Foi um lugar onde eu poderia ser quem eu quisesse sem precisar fingir que era outra pessoa. E o teatro sempre dá de volta aquilo que você dá para ele.

Eu não importo para o teatro, o teatro não depende de mim, então eu vou todos os dias ao teatro para ele nem ousar esquecer que eu estou nele. Para ele não esquecer que eu existo, porque eu existo por causa dele.

Foto: Divulgação

A dramaturga da peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, Jo Clifford, também é uma mulher trans. Você acredita o texto se torna mais forte pelo fato de vocês duas vivenciarem?
Nós vivemos em uma sociedade corporificada, na qual existem corpos que são aceitos e os que não. O corpo da travesti é um corpo marcado, ele causa desconforto. O meu corpo não é neutro no teatro, a minha Julieta não começa do zero. O meu corpo é um corpo travesti, e isso vem antes de qualquer coisa na minha vida. Então, quando a gente tem um texto que é potencializado por aquele corpo, que é político, é representativo, que é um corpo que é mais velho que eu, porque assumir a minha corporeidade ela já vem incrustada de um monte de coisa que não foi causada por mim, independente do que eu seja, do que eu faça e de como eu viva, esse preconceito vai me pegar em todas as instâncias.

Por que essa peça causou tanto desconforto?
Por que não pode Jesus ser uma travesti? Porque a nossa identidade foi tão criminalizada que nosso corpo é um corpo que as pessoas riem, é um corpo de chacota, fetichizado, sexualizado, um corpo doente, e que as pessoas acham que que causa todas as doenças. Esse corpo é marcado por muita violência, por muita exclusão, e a arte ajudou a construir isso. A arte fez os nossos corpos serem risíveis, a arte fez o público achar que nós somos homens de saia.

Por que é importante ter artistas trans e travestis no teatro?
Porque a gente quer que aquela velha frase clichê, “A arte imita a vida, e a vida imita a arte”, seja verdadeira. A gente quer que a arte inclua os corpos travestis e transgêneros.  E essa luta, que é estrutural, é tão difícil que não nos dá tempo de pensar na nossa própria identidade, porque vivemos em um país ignorante, que não nos oferece trabalho, que nos leva ao confinamento doméstico porque não queremos sentir  a hostilidade das ruas. Por isso a gente acaba desenvolvendo depressão – o suicídio é o segunda maior causa de mortes das trans e travestis no Brasil.

Quem são as pessoas que te inspiram?
Fernanda Montenegro, Maria Bethânia, Cláudia Wonder, Nina Simone.

Você acha que o cenário está mudando para melhor?
Eu acho que as artistas trans no Brasil precisam se empoderar mais, se colocar mais politicamente,  e parar de tentar se encaixar na cisgeneridade, pois isso só nos faz mal.

Mas acho que o cenário para as artistas trans no país está melhorando. Na música deu uma boa melhorada, e a música acabou puxando todo o cenário artístico. Nós começamos falar de representatividade agora, enfrentamos essa  questão no movimento MONART, queremos que atores cisgêneros não aceitem mais interpretar personagens trans. A gente está nessa luta, não é uma luta estética, não é uma luta teórica, é uma luta humana.

Leia aqui o manifesto da representatividade tras e transgênero na arte.