Representatividade trans importa na arte?

A Globo, principal emissora do país, falou sobre transexualidade no horário nobre em 2017. No mesmo ano, a peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, foi cassada por conservadores religiosos e censurada em diversos espaços culturais por ser um trabalho no qual Jesus Cristo volta à Terra no corpo de uma mulher trans. Será que estamos avançando na representatividade?

Aliás, o que é representatividade? O termo cresceu nos últimos anos, mas será que se ver representado nos espaços é tão transformador assim?Quando falamos de representatividade no campo da psicologia, ela afeta no sentido de que, ao vermos pessoas semelhantes em termos de grupo social, conseguimos nos reconhecer naquele lugar e perceber que também podemos estar nesse espaço. É esse o nosso principal argumento quando pensamos em ações afirmativas”, explica Jaqueline Gomes de Jesus, doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília e pós-doutora pela Escola Superior de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas RJ.

No caso de A força do querer (2017), houve críticas ao colocarem uma atriz cisgênero para representar um homem trans, já que a representatividade veio pela metade. Incompleta por não dar a chance para um artista trans protagonizar um momento tão emblemático na televisão brasileira, incompleta por ignorar as centenas de atrizes e atores que poderiam representar com muito mais propriedade esse importante papel.

Transistorizada - Luiza lemos
Arte: Transistorizada, de Luiza lemos

“Ai, mas a ideia do teatro não é permitir que qualquer pessoa interprete qualquer papel?”, você pode se perguntar. Respondemos: quantas travestis você já viu interpretando uma mocinha em alguma novela ou teatro? Quantos atores trans já foram galãs em produções teatrais, sejam elas grandes ou pequenas? No país que mais mata travestis e transexuais no mundo, é importante e necessário sair da zona de conforto que o sujeito universal nos deixa. O sujeito universal é o homem, branco, cisgênero e heterossexual que se vê representado em todos os espaços e, por esse motivo, acredita que é o padrão universal, e todo o restante é visto como o outro, o diferente.

“O ideário que temos de população trans foi construído a partir do olhar transfóbico, assim como acontece com outras populações oprimidas, então é um olhar que faz com que pessoas nascida com vagina sejam lidas como meninas e outras, nascidas com pênis, sejam tratadas como homens. Quando as pessoas trans se representam e falam de si, elas demonstram que sua existência é viável aquém e além desses estereótipos, contribuindo para mostrar que o discurso da patologização não é mais viável hoje”, comenta Jaqueline.

A gente fica mordido, não fica?

Em 2015, Liniker abalou as estruturas da música popular brasileira com o single Zero, publicado no youtube. De lá pra cá, a cantora desabrochou como uma das principais cantoras da nova MPB brasileira, e abriu espaço para outras cantoras como Candy Mel, Raquel Virgínia e Assucena Assucena (As Bahias e a cozinha mineira), Linn da Quebrada e Jup do Bairro.

Essa representatividade na música foi importante para que outras artistas vissem que também era possível fazer sucesso e ser reconhecida por seu trabalho artístico. “No Brasil, quando foram excluídas da educação formal, travestis e transexuais criaram uma cultura própria que ainda não é plenamente reconhecida, uma cultura que é basicamente uma cultura oral – o Pajubá – que criou signos que as pessoas usam hoje não retribuem a população trans. Foram mecanismo criados ao longo dos séculos, não no sentido de conseguir espaços de poder, mas de ter influência, nem que seja o mínimo. A arte foi fundamental para influenciar e mostrar novas formas de se pensar”, explica Jaqueline.

Quando pessoas marginalizadas trazem um olhar divergente de gênero enriquece esse imaginário social e mostra que existe algo além daquilo que é considerado normal
Jaqueline Gomes de Jesus

“Fazer parte da arte brasileira é contribuir mostrando a nossa linguagem e nosso conhecimento e nossos dilemas, fazendo com que a sociedade brasileira e o mundo todo repense seus paradigmas”, explica Raquel Virgínia, cantora e compositora do grupo As Bahias e a cozinha mineira.

Deu pra perceber que a representatividade importa, mas que não podemos parar por aí, né? O protagonismo depende da maior presença, e a maior presença precisa de um reconhecimento da importância desse aumento. “Temos um avanço inegável, mas ainda falta esse grande avanço de perceber um ato trans como ator, que pode representar qualquer pessoa, seja ela cis ou trans”, diz a psicóloga.

Listamos aqui algumas artistas pra você acompanhar o trabalho de pertinho e não perder de vista:

Linn da Quebrada

Bicha, travesti, preta e periférica que está descobrindo as possibilidades de existência e resistência no mundo. Assim podemos definir Linn da Quebrada, artista que aos 27 anos canta suas experiências e ocupa, mesmo que na marra, espaços negados a ela no país que mais mata travestis e transexuais no mundo.

Foto: Filipa Aurelio
Renata Carvalho

Atriz extremamente apaixonada pelo seu trabalho, que vai ao teatro todos os dias para ele nem ousar se esquecer dela, que existe por causa dele. Renata Carvalho está há 22 anos no teatro, 22 anos resistindo a transfobia que tenta tirar aquilo que para ela significa tudo. Renata ficou nacionalmente conhecida por representar  ninguém menos que Jesus Cristo, na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que desde 2016 quando estreou,  vem sendo atacada por todos os lados da sociedade. Algumas sessões chegaram até serem canceladas, outras tiveram que contar com policiais no local para garantir a integridade física da atriz.

Márcia Daylin

No dia 13 de agosto, em Jales, interior de São Paulo, nascia aquela que seria a primeira bailarina transexual do conservador Teatro Municipal de São Paulo, também um dos mais importantes do país. Filha de um eletricista muçulmano, e uma professora de aeróbica e jazz, Márcia Dailyn cresceu rodeada pela dança, arte pela qual se apaixonou

Foto: Zé Carlos Barretta