Tayla Fernandes: a arte nasce na periferia

Por Martina Ceci*

Os primeiros versos de poesia foram  escritos ainda no ensino fundamental. A professora pediu que a turma que cada fizessem uma redação, Tayla Fernandes juntou textos, criou uma história e entregou um livro que contava a história de um encontro entre homem em situação de rua e uma criança, pai e filha, que viviam no mesmo bairro e não se conheciam até então.

O Guia Maria Firmina conversou com Tayla Fernandes: mulher negra periférica, poeta, militante, slammer, atriz, artesã, filha da Bahia e ‘mãe da Gabis’, que aos 28 anos não abre mão da luta, da arte e da vida.

Foto de Tayla Fernandes
Foto: Renata Armelin

Quando você se percebe uma mulher negra da periferia?
Assim como o lance de ser artista, eu nunca tive a oportunidade de não me ver nesse território de ser uma mulher negra de periferia. A minha primeira infância foi em bairros mais elitizados, mas foi rápido pra eu conhecer e ir morar numa ocupação. E até por ancestralidade mesmo, eu sempre vi o quanto meus pais ‘se lascaram’ nessa realidade. É desde sempre, mas quando eu tinha 19 pra 20 anos, alisei meu cabelo e me arrependi, na hora já entrei na transição, e nessa transição vieram motivações de ter uma postura mais afirmativa no lance negritude e tomar como primeira pessoa tudo que via há muito tempo sobre racismo.

O que é o slam para você?
O slam pra mim é espaço de luta, de resistência, de empoderamento, de construção e de comunhão artística. Como slammer, o que a gente busca é comunhão. Eu quero ser ouvida, quero passar uma mensagem. Slam é como uma brincadeira que a gente consegue comungar, trocar, ele vem do sarau e ocupa esse espaço de ‘botar o dedo na cara’ do estado, das estruturas racistas, machistas que compõem a sociedade.

Eu não tenho capacidade de traduzir Freud na gíria da galera, mas eu posso explicar pra ele a importância que é saber sobre aquilo

Você também é parte do Coletivo Pretas Peri, que organiza Saraus na periferia da Zona Leste de São Paulo. Qual a importância de chamar a comunidade pro palco, pra arte?
O Pretas é um coletivo de Saraus, formado há 4 anos por Jô Freitas, Juliana Jesus e eu, nos saraus a comunidade se sente pertencente. É o cara do bar que empresta a tomada todo mês, a senhorinha que traz água o pessoal da comunidade ajuda para fazer acontecer mesmo.

Eu tenho uma poesia curtinha que fala assim ‘Palco vazio, oficina do Bolsonaro’. Eu entendo que a quebrada é como é, por causa de estrutura mas, principalmente por causa da arte, porque é uma questão de essência na vida das pessoas. Antes de andar uma criança dança, antes de falar ela canta… A arte é uma necessidade básica e quando não existe arte por perto, a pessoa usa a criatividade em outras coisas e não necessariamente coisas positivas, então a importância de trazer a galera para arte é identificação, o ‘fazer artístico’ é muito importante para sensibilidade das pessoas. É um lugar para expressar visões de mundo, uma ferramenta de luta necessária. Eu não tenho capacidade de traduzir Freud na gíria da galera, mas eu posso explicar pra eles a importância que é saber sobre aquilo.

Foto das criadoras do Sarau Preatas Peri
Jô Freitas, Juliana Jesus e Tayla Fernandes comandam o Sarau das Pretas Peri


Em quais  momentos você se sentiu grata por fazer arte?
São tantos… É difícil dizer um só. Os processos chegam em mim de maneira diferente, no teatro eu consigo socializar à minha maneira através de um personagem. Num sarau às vezes o que eu vou ‘mandar’ agora, a galera pensa que eu escrevi ontem, mas eu escrevi, sei lá, com 17 anos e só agora eu consegui colocar pra fora.

Já fiz teatro na praça com o Coletivo DioTespissio, num momento difícil na minha vida e na hora eu pensei em não fazer, mas a galera deu apoio e no final foi lindo. No final ano passado eu participei do programas Manos e Minas, da TV Cultura que é uma experiência única para quem é slammer, e eu já comecei falando de amor [risos].
A gente alcança muitas pessoas com a arte, mas pra mim o mais importante foi ter chegado até a minha mãe através da arte, me aproximar e entender ela como ela é, e ela me entender como eu sou.

Quais são as suas referências na vida e na arte?
Eu tenho muitas referências, mas Maria Carolina de Jesus é uma referência grande, a rapper Bivolt, a rapper Brisa Flow e a historiadora e escritora Beatriz Nascimento são as mais próximas. Beatriz Nascimento é bem importante pra minha vida, há algum tempo ela aponta para a mesma direção que eu vou, o que eu quero e o que eu anseio de luta pra mim, sabe?!

Sonha com a preta, casa com a branca pra ser bom moço na língua  da mamãe, da titia e continuar gozando sem proteção em toda piriquita
Parabéns, mais uma estrelinha de esquerdo macho pra sua carteirinha
Nessa frente única desfalcada continuo na base, uma puta base de realidade e ainda bem que não preciso da sua luz porque mesmo na mais profunda escuridão o
dourado da minha melanina me faz brilhar
e pode deixar que estou aprendendo a me cuidar
Mas sabe aquele lugar de fala na cadeira do doutorado, então, boy?
Nos vemos lá.

* Martina Ceci é uma jornalista e mogiana que acredita nas pequenas alegrias da vida.