Visibilidade trans e a escrita libertária de Amara Moira

Caso fosse necessário descrever Amara Moira em uma expressão, com certeza seria uma amante das línguas. “O que é poético para mim é essa experimentação absurda com as palavras”.

Escritora, crítica literária e doutora pela UNICAMP com tese que estuda a obra de James Joyce, considerado um dos escritores mais difíceis do Ocidente, Amara Moira é dona de uma fala calma, clara, que não se incomoda em explicar coisas que para ela são óbvias e fazem parte do seu cotidiano. Fascinada pela literatura desde muito jovem, aprendeu a ler sozinha aos quatro anos, aos oito escrevia poemas para o pai e aos 17 enxergava na literatura uma oportunidade de conhecer novos mundos e realidades, fugindo um pouco da aspereza da vida.

Seu primeiro livro, E se eu fosse puta (2016), conta sobre sua experiência durante dois anos trabalhando como prostituta. Os relatos em formato de prosa poética contrariam a especialidade de Amara, que sempre se interessou por poesia. “Meu livro é uma prosa que quer ser poesia porque antes da transição eu só escrevia poesia, e gostava também de traduzir poesia justamente para aprender a escrever, saber como usar o ritmo, sons, métricas. Quando passo pela transição, passo a ser mais prosadora que poeta, não sei exatamente o motivo. Nunca escrevi prosa antes e de repente todo o meu blog, que deu origem ao livro, veio em forma de contos e relatos do dia a dia”.

Foto: Juliana Meres Costa

Atualmente, a escritora e militante sente a necessidade de um conteúdo que se mostre para além do mero jogo de palavras, falando sobre a realidade de pessoas trans, no geral, ou apenas de sua própria história, evidenciando desigualdades que passou a enxergar com mais clareza depois da transição. “Durante 29 anos existi como homem para a sociedade e isso significou que ninguém nunca me tocou sem o meu consentimento. Mas bastou me verem como Amara para isso se tornar uma experiência cotidiana. O meu corpo não passa despercebido, é o tempo todo pescoços girando, tentando entender…  São essas sutilezas que me fazem perceber quais são os espaços que posso chamar de meus e quais são os que serei lembrada o tempo inteiro que sou uma intrusa por ter um corpo que não faz sentido”.

Na entrevista para o Guia Maria Firmina, Amara conta sobre projetos futuros, escritoras que a inspiram a continuar na literatura, transfobia, machismo, racismo e muito mais.

O que te levou à prostituição? Por que falar sobre isso no seu livro?
Tento elaborar essa resposta há anos, mas não consigo. Estava na UNICAMP quando comecei minha transição. Eram 5 pessoas trans em meio a 30 mil alunos e, por mais que existisse um grupo que nos apoiasse e admirasse, o tempo inteiro eram olhares que não sabiam me reconhecer, exclusões sociais em festas, nas redes sociais, na casa de família ou amigos. Comecei a viver uma vida que escancarava processos de exclusão que eu nunca tinha vivido e, junto com isso, fui conhecendo pessoas que estavam construindo a militância muito antes de mim, travestis que por décadas existiram e lutaram para que hoje eu pudesse existir como Amara, e a maior parte dessas que vieram antes pagaram o preço de uma prostituição precarizada e estigmatizada.

Comecei a olhar para a prostituição com outros olhos. Antes de conhecer essas pessoas, o meu grande pavor era começar minha transição e ser obrigada a viver da prostituição. Mas, a partir do momento que fui vendo elas construindo aquilo como um espaço de resistência, onde podíamos existir quando a sociedade nos fechou todas as portas, passei a querer que o mundo visse o que a gente via ali.

Então  fiz um blog, contando do dia a dia, contando como é que é, a preparação, como é estar ali com o corpo nu, como os clientes nos tratam, e com o tempo fui me dando conta que, mais do que falar sobre a minha rotina, estava falando como a nossa sociedade constrói os homens, porque ali as masculinidades tiram o véu e revelam coisas que não assumem pra própria sombra.

A partir do momento que fui vendo aquilo como um espaço de resistência, onde podíamos existir quando a sociedade nos fechou todas as portas, passei a querer que o mundo visse o que a gente via ali

Como foi a recepção do livro?
O blog foi muito mais atacado do que o livro. Contra o livro, não me lembro de nenhum ataque. O livro veio como consequência da militância que eu já exercia, mas amplificou isso a um nível que eu não sei calcular. Ele entrou como bibliografia base para cursos de graduação e de pós em várias universidades do Brasil, é estudado na Brown University (EUA)… Foge do meu controle imaginar quantas pessoas tiveram acesso, mas só vejo notícias positivas, nunca vi ataques. Há aspectos criticáveis, claro, mas não tem como olhar só para o negativo.

Eu queria que esse livro fosse feminista, mas não panfletário. Quase não falo a palavra “cis”, por exemplo, pois acho que ela se comunica com um número muito restrito de pessoas. Tentei deixar de lado os jargões para ir atrás da poesia das palavras e escancarar o feminismo como consequência da leitura, não como objetivo. Quero que as pessoas leiam isso e sintam que existe uma perspectiva feminista na forma de retratar esses acontecimentos, mas não que é uma “obra feminista”.

De que forma você construiu a narrativa da obra, permitindo que as pessoas sentissem “na pele” o que é ser prostituta e travesti no Brasil?
Gosto de pensar que a pessoa que conta a própria história escreve sobre algo que ela já conhece. Eu sabia o que tinha de ser contado, só precisava pensar nas palavras e brincar com os sinônimos e sons delas. Queria despertar nas pessoas sensações complexas, porque quando estamos na rua sentimos coisas complexas. Medo, angústia, que nosso corpo é feio, bonito, sentimos tesão… Eu queria que o leitor sentisse tudo isso. A complexidade de experiências pelas quais a gente passa. Outras narrativas que não essas banais, pobres, que dizem que prostitutas são mulheres “de vida fácil”, “pessoas sem caráter”.

Eu entendo muito mais o propósito da literatura e onde ela consegue chegar lendo Carolina Maria de Jesus do que lendo Eça de Queirós

Acha que a arte abre nossos olhos para outras realidades?
Ela pode permitir isso, como também pode permitir que populações continuem invisibilizadas, violentadas. Tenho muito pavor dessa ideia de literatura boazinha, porque a história da literatura é feita com misoginia, racismo e elitismo brutal, ou seja, um discurso que lemos, batemos palmas e que contribui para a perpetuação de um estado de coisas.

LGBTs, por exemplo, não entraram na literatura agora. Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, e O Ateneu, de Raul Pompeia, escritos durante o realismo e o naturalismo, são obras cheias de personagens LGBTs, mas que sempre aparecem como alvos de chacota, desprezo, e/ou descritos como animais.

Outro exemplo: Antologias de poesia eróticas descrevem cenas que não estão falando de erotismo, mas de estupro. Isso é um absurdo, precisa ser revisto. Não interessa se há 300 anos atrás o Bocage e o Gregório de Matos achavam que isso era erótico. Hoje nós precisamos descrever essas mesmas cenas com outro olhar, ter sensibilidade para perceber a violência que elas estão retratando e reproduzindo.

Foto: Cintia Antunes

Você é professora de literatura. Acredita que é papel do professor mostrar aos alunos obras escritas por mulheres?
É possível montar um currículo inteiro de literatura sem citar uma única mulher, e já trabalhei em colégios em que isso acontecia. Quando precisava citar uma, era hora de falar de Clarice Lispector porque ela cai no vestibular. O problema é que quando fazemos isso perdemos de vista a quantidade gigantesca de mulheres escritoras, de obras incríveis que nem são consideradas literatura, apesar do conteúdo que trazem. Trabalhos muito mais interessantes que as obras enfadonhas que somos obrigados a ler.

Carolina Maria de Jesus, por exemplo, é o tempo inteiro deslegitimada enquanto escritora. Isso é muito cruel porque desrespeita todos os saberes que são construídos à margem da história oficial da literatura: o cordel, a literatura popular, os slams de hoje em dia, que unem literatura e performance. Nós [os críticos] não sabemos analisar essas obras.

Eu entendo muito mais o propósito da literatura e onde ela consegue chegar lendo Carolina Maria de Jesus do que lendo Eça de Queirós, por exemplo. Tem coisas para aprender com ele? Claro que tem, mas é uma literatura maçante que, perto da Carolina, se apequena.

Tem muita coisa interessante se pensarmos na literatura não só em função da construção da identidade nacional, mas também em função da emancipação negra, das mulheres, de pessoas LGBTs etc.

Quais são suas referências de escritoras mulheres?
Uma autora que sempre me acompanhou e, inclusive, muito do que sou devo a ela, é a Hilda Hilst. Ela tem uma obra que não mede palavras, um gosto por dizer as coisas que não podem ser ditas e, pra completar, morava perto da minha casa em Campinas. Ela me mostrou que a literatura escrita por mulheres não precisa ser comportada, delicada, aquilo que a sociedade quer que seja feminino. Ela sempre me acompanhou, me assombrou, mexeu com minhas expectativas e me ensinou novos caminhos a respeito do que era literatura.

Clarice Lispector, que consegue escancarar as violências cometidas contra mulheres sem ser panfletária. Ela mostra sutilmente como são construídos os destinos femininos na sociedade e como eles são perturbadores.

Recentemente comecei a ler Lygia Fagundes Telles, e alguns contos são absurdos e esquisitíssimos. O jeito como ela desvia do sentido tradicional, concebendo histórias sem um fio narrativo delimitado, é muito bonito e interessante.

Carolina Maria de Jesus eu já citei bastante. Nísia Floresta, que escreveu no século XIX e já tinha um discurso feminista naquela época. A Maria Firmina, que vocês homenageiam, mulher negra que escreveu literatura abolicionista antes do abolicionismo ser moda literária no Brasil, mais de dez anos antes de Castro Alves, inclusive.

Tem muita coisa interessante se pensarmos na literatura não só em função da construção da identidade nacional, mas também em função da emancipação negra, das mulheres, de pessoas LGBTs etc.

Foto: Juliana Meres Costa

Acredita que o cenário está mudando para mulheres trans? Vemos drag queens que começaram a ocupar alguns espaços. Acha que isso confunde a cabeça da população ou é uma forma de continuar a espalhar diferentes ideais de gênero?
As pessoas não são apenas o que elas dizem de si. Eu tenho problema com a autoidentificação como um decreto, porque a sociedade não funciona assim. Dizer que Pabllo Vittar é homem não faz com que a sociedade a veja como homem; ela sofre transfobia também, porque pode ser lida como uma pessoa trans, então não deixa de estar nesse grupo.

Quando você vai para as periferias, percebe que essa diferenciação entre orientação sexual e identidade de gênero muitas vezes não é clara. Tem espaços em que é difícil dizer onde termina a bicha pintosa e começa a travesti, ou a sapatão masculina e o homem trans. Não é tão simples. Tem travesti que diz que é homem porque nasceu com pênis, e ela sofre a mesma exclusão da que diz que é mulher, e da mesma que diz que não é homem e nem mulher, mas travesti.

Tem espaços onde é difícil dizer onde termina a bicha pintosa e onde começa a travesti, ou a sapatão masculina e o homem trans

Você pretende escrever outros livros? Tem algum projeto para 2018?
Minha ideia nas férias deste ano é criar uma rotina de escrever poesias diariamente, para trabalhar minha escrita poética, e juntar um acervo para lançar ainda em 2018. Quero lançar esse livro de poemas trans, e também um mais teórico, sobre teoria transfeminista. Ler teóricas como Butler e Beauvoir com a atenção que elas merecem, selecionando passagens para ajudar a pensar, reciclando assim as minhas formas de entender gênero e militância. Pensar naquilo que ainda precisa ser dito e construído.

Além disso, estou no processo de uma tradução poética de MacBeth. Os versos dessa peça são bárbaros, sonoros, nada formais, e quero trazer isso para o português com uma tradução menos certinha. No momento é disso que eu quero brincar.