40 anos sem Clarice

Na manhã de sexta-feira, 9 de dezembro de 1977 a literatura brasileira perdia uma das sua mais importantes escritoras, Clarice Lispector. A escritora faleceu na véspera do seu aniversário de 57 anos, vítima de um câncer.

Clarice nasceu na Ucrânia, mas chegou ao Brasil com apenas dois meses de idade com seus pais e duas irmãs que imigraram após a revolução Russa. Foi originalmente registrada como Haia, que significa vida ou clara, coincidência, ou não, o nome adotado no país onde mais tarde foi naturalizada, tem o mesmo significado. Clarice cresceu em Recife, ao terminar o ensino fundamental mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar faculdade direito.

Aos 22 anos escreveu seu livro de estréia Perto do Coração Selvagem, que causou estranheza,mesmo assim agradou à crítica, no ano seguinte o livro foi premiado pela Academia Brasileira de Letras. A partir daí, a escritora transformou os caminhos da literatura ficcional do país, com base em uma experiência introspectiva – marca da literatura clariciana – que captura e se apropria do que parece mínimo, banal ou mesmo óbvio, para estabelecer um diálogo surpreendente com o mundo.

A escrita de Clarice é misteriosa, enigmática, causa espanto, também é simples e direta. Ao mesmo tempo que parece revelar o desconhecido ao leitor, aponta verdades extremamente íntimas. É uma leitura arrebatadora, como ela mesmo dizia “para algumas pessoas bate, para outras não”, para os que fazem parte do primeiro grupo, é quase impossível sair ileso de um de seus livros ou contos.

Depois do primeiro livro vieram O lustre, A cidade sitiada, Laços de família, A maçã no escuro e talvez umas das suas obras mais impactantes, A paixão segundo G.H., onde a autora traça um diálogo estranho com um alguém que não tem voz (o leitor?). Neste livro, a linguagem transborda, hesita, corta o silêncio é um diálogo angustiante e introspectivo, muitos o consideram a maior obra da autora.

Foto: Agência IstoÉ

Clarice foi romancista, ficcionista, contistas e jornalistas, tinha quase sempre uma mulher como personagem principal. Escreveu em diversos jornais, inúmeros contos, novelas e até mesmo colunas de jornais fugazes onde dava conselhos amorosos, de moda e beleza. Foi uma jornalista relutante, temia que o contato com o factual pudesse comprometer a sua ficcção.

Escrever era algo instintivo para ela, “quando não escrevo estou morta”, disse uma vez em uma entrevista. Mas não gostava de se assumir como uma escritora profissional, dizia que escrevia quando queria, não por obrigação, por isso se considerava uma amadora.

A última obra de Clarice foi A hora da estrela, escrito no ano em que morreu. O seu oitavo romance é uma reflexão a respeito da complexidade da realidade, e também a dificuldade de percebê-la. Nesta novela que conta a trajetória da inocente nordestina Macabéa, a autora sai da ficção e desmascara a crueldade humana e a brutal desigualdade social no Brasil.

Uma vez perguntaram a Clarisse que título ela daria a sua autobiografia, a resposta foi, como próprio dela, incisiva: “A procura da própria coisa”. A busca por essa “Coisa” – o mundo real, neutro, indiferente às construções humanas foi o que ela sempre buscou na sua literatura.

*Este programa da TV Cultura é um dos poucos conteúdos audiovisuais de Clarice, foi gravado no ano da sua morte, mas a pedido da autora, só foi ao ar depois que ela já havia falecido.