A galeria da vulva: Como é uma vagina bonita?

Em The Vulva Gallery, a ilustradora holandesa desenha, em cores, formas e histórias, a beleza e diversidade da anatomia feminina

Pense em um número. Que tal 23.155? Te soa familiar? Pois essa é a quantidade de mulheres brasileiras que, só em 2016, passaram por uma labioplastia.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), nosso país é o campeão isolado no total de procedimentos feitos ao redor do mundo. A cirurgia íntima, que visa reduzir ou remodelar os lábios vaginais, é na verdade o reflexo de um comportamento sintomático e uma reflexão muito maior que alguns dados e gráficos: somos ensinadas a ter vergonha de nossos corpos, mesmo sem nos conhecermos. E então, vem a arte.

Como é uma vagina bonita? Qual é o tamanho normal da vulva? Será que todas têm tantos pelos? É normal ter determinado formato dos lábios? Para responder a essas e mais questões, nasce o The Vulva Gallery.

Vagina é apenas a parte interna dos órgãos genitais femininos. Não deveríamos reduzir a vulva apenas a um duto, porque ela vai muito além do que isso.

O projeto, criado pela ilustradora holandesa Hilde Atalanta, traz a vulva em suas mais diferentes versões e possibilidades, cores, tamanhos, histórias. Através de retratos em aquarela da genitália feminina, sempre acompanhados de um relato da pessoa desenhada, a artista quer promover não só o autoconhecimento como especialmente a educação sexual. De acordo com Atalanta, o único modo de mudar a experiência que os indivíduos têm como seus próprios corpos é instruir, a eles e aos outros, sobre a diversidade.

Aliás, isso já começa pelo nome da iniciativa. Apesar de saber o que é uma galeria, muita gente ainda desconhece o significado da primeira palavra: a vulva é a parte externa dos órgãos genitais femininos, começando na abertura da vagina, revestida por fora por pelos pubianos, e passando pelos lábios maiores, lábios menores, indo até o clitóris. Em entrevista, a criadora das ilustrações explica o porquê dessa escolha.

Como nasceu o The Vulva Gallery?
Essa série de ilustrações nasce em 2016 com o objetivo de celebrar a vulva em toda a sua diversidade ao redor do mundo, aquela que não é vista na mídia popular. Geralmente nos deparamos com um único tipo, cor, formato e tamanho de vulvas, tanto em veículos de comunicação como no pornô – e até mesmo em livros de biologia, que deveriam nos educar.

O projeto The Vulva Gallery retrata a diversidade da genitália do sexo feminino
O objetivo do projeto é conscientizar e educar através da arte, mostrando a diversidade

O que observamos é que é vendida uma imagem da vulva ideal, “perfeita”, que na verdade não existe. Todas as vulvas são perfeitas. O problema é que isso faz com que as meninas cresçam achando que seus corpos não são normais, e vemos crianças já pesquisando sobre labioplastia. Nos últimos anos, cada vez mais adolescentes menores de 18 anos, até mesmo 15 anos, já estão sendo submetidas à esse procedimento, que hoje já um dos tipos de cirurgia plástica que mais cresce em procura e realização.

Assim, eu viso também melhorar a educação sobre a saúde sexual e abrir debates sobre pontos que ainda são um tabu.

E por que “Vulva” e não “Vagina Gallery”?
Vagina é apenas a parte interna dos órgãos genitais femininos. A vulva abrange a parte externa dos órgãos genitais femininos, o monte púbico, os grandes e pequenos lábios, o clitóris e o capuz que o reveste, o bulbo do vestíbulo, o vestíbulo vulvar, o meato uretral, as glândulas vestibulares maiores e menores, abertura vaginal, fenda entre os dois lábios maiores, glândulas sebáceas, o triângulo urogenital (parte anterior do períneo) e pelos.

Não deveríamos reduzir a vulva apenas a um duto, porque ela vai muito além do que isso.

O projeto The Vulva Gallery retrata a diversidade da genitália do sexo feminino

Você começou com uma galeria online, um ambiente que ainda não é muito acessível a todas as mulheres quando pensamos nas diferentes realidades da população mundial. Porém, você decidiu dar um novo passo e transformá-la num livro, correto?
Eu quero sair do mainstream. As ilustrações inicialmente foram divulgadas na internet pelo seu poder de alcance. Falo sobre e retrato mulheres de todo o mundo, em suas mais diferentes versões. Mas agora estou trabalhando num lindo livro que quero que seja usado por todos, visto em aulas de saúde e práticas médicas, lido nas salas de espera de consultórios, dado como um presente para pessoas com ou sem vulva.

É para ser um material inclusivo, voltado a qualquer pessoa que tem ou já tenha tido problemas com a aparência da vulva, para os pais que querem conversar com seus filhos, para educadores, o céu é limite. É informação de um modo acessível, belo e positivo. Esse conteúdo já está em fase de produção, e em breve será enviado para qualquer lugar e país.

Suas publicações já foram denunciadas diversas vezes no Instagram. Como é possível inverter esse comportamento? Você acha que ainda há uma resistência muito grande ao acesso à informação?
Como somos educados a ver vulvas perfeitas, sem pelos ou fluidos, é compreensível que as pessoas se choquem ao encarar o real. Minhas ilustrações têm cicatrizes, piercings, menstruação. Mas ainda assim, e principalmente por isso, são focadas na beleza, na pluralidade e na funcionalidade de nossas vulvas. Eu não faço meus desenhos pensando no senso estético comum que apenas as vê como belas quando objetificadas ou sexualizdas.

Meu trabalho é arte, e segue as diretrizes do Instagram. Eu quero ajudar. Se você não gostar, simplesmente vá a uma página diferente.

 

Saiba mais sobre o trabalho da Hilde Atala neste vídeo (em inglês):