Amorar, sobre o livro de Natália Borges Polesso

Por Jéssica Carvalho*

Antes de lermos Amora, livro de Natália Borges Polesso, no primeiro ciclo do Extra LiteráriA Clube de Leitura, eu não sabia que essa palavra tinha múltiplos significados e podia ser verbo. Amora é a frutinha linda que mancha, é a cor que vem da mesma e ainda é verbo: amorar, que significa enamorar-se e também fugir (de casa).

Amar, para muitas mulheres é fugir de casa, principalmente quando essa casa é construída sob uma estrutura imposta, antiga, naturalizada — a heterossexualidade. Fugir para amar livremente, não importa quando e em que fases da vida, é a sustentação principal do livro de contos de Natália Borges Polesso. Uma galeria de mulheres lésbicas numa potência poética livre, que emociona e causa empatia imediata, seja contando a história de uma garota que se apaixona por sua amiga no colégio, seja pelo netinho que pergunta diretamente sem nenhum fundo de julgamento ou preconceito Vó, a senhora é lésbica?

Quando um livro desses surge, ganha prêmios como o Jabuti 2016 (categoria contos) e tem um trecho no Enem, junto com ele vem o rótulo de literatura lésbica. Qualificar um livro em determinada categoria é uma via de mão dupla — ao mesmo tempo que posiciona um espaço de representatividade necessário, afetiva e politicamente importante, pode aprisioná-lo e direcioná-lo a um único público.

Pensando nisso, Natália Borges Polesso resolveu estudar através do campo da geografia literária autoria e representatividade na literatura em geral escrita por lésbicas, bissexuais, transexuais, queer e não-binárias, através de um extenso mapeamento temporal e territorial, para entender onde estão, quem são e como são produzidas as obras que atravessam essa temática. A autora e pesquisadora nos cedeu alguns dados muito interessantes por e-mail de sua pesquisa de pós-doutorado, que registrou até o momento 222 escritoras pelo mundo, dividindo-as entre brasileiras e estrangeiras, vejam só:

Esse levantamento, que é parcial e de uma pesquisa em desenvolvimento, mostra um produção expressiva do cenário da literatura contemporânea de LBTs. Juntas todas são números e soma, cheias de subjetividades, narrativas, personagens, mas sobretudo vida — de mulheres que se amam e se relacionam sexual e afetivamente umas com as outras.

A literatura é também um dispositivo político que modula a sensibilidade, onde é possível enxergar novas relações entre corpos, criando um fortalecimento social atrelado à pauta de combater a lesbofobia e o preconceito. Num país com altos índices de violência homofóbica e em especial nesse momento de retrocesso político permeado por desinformação e obscuridade, a visibilidade dessas produções torna-se de extremo valor e importância. Dia 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, data escolhida na ocasião do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), em 1996 no Rio de Janeiro, criado para discutir principalmente a saúde das mulheres lésbicas, trabalho e cidadania.

Celebramos essa data incentivando vocês a refletirem sobre o assunto, convidando-as para ler mais autoras LBTs e apoiar esses trabalhos. Colocamos aqui alguns links muito legais sobre o tema, para quem quiser conhecer mais!

Material do encontro do Extra LiteráriA clube de leitura sobre Amora.

Suplemento Pernambuco sobre duas autoras lésbicas que tiveram produção e alcance muito expressivo durante a ditadura militar brasileira: Cassandra Rios, a primeira autora nacional a vender 1 milhão de exemplares, e Adelaide Carraro, a quem dizem que Marx leria com entusiasmo.

Entrevista com Cassandra Rios para Revista Realidade, onde é possível ver o quanto avançamos no vocabulário e repertório político. A reportagem é um registro de como ela era vista na época.

Lésbicas que Pesquisam:  instagram que agrega estudos sobre o tema

A antologia A Resistência dos Vagalumes que, da prosa à poesia, traz toda a força e a diversidade da literatura brasileira atual. Ao todo, são 61 nomes a representar todas as letras da sigla LGBTQ. Entre eles, constam João Silvério Trevisan (que inspirou o tema da antologia), Myriam Campello, Jean Wyllys, Amara Moira, Cidinha da Silva, Raphael Montes, Natalia Polesso e Marcelino Freire; além dos organizadores da antologia, Cristina Judar e Alexandre Rabelo.

* Jéssica da Silva Carvalho é realizadora do Extra Literário Mediação Cultural em Literatura, que tem como principal objetivo tornar a literatura a coisa mais próxima da vida. Formada em História na PUC-SP, atua na área desde 2016, realizando clubes de leituras e palestras em diferentes espaços, como a Livraria da Vila, Centro Cultural Artemis, Tapera Taperá e Biblioteca Mário de Andrade. Atualmente desenvolve o projeto “Extra LiteráriA”, que tem o objetivo de refletir e melhorar o cenário da desigualdade de gênero na literatura, através de ciclos de um semestre de duração com curadoria específica de obras que dialogam com as questões do feminino