Ariádine e a delicada arte de cortar papel

Uma folha de papel e um bisturi. São esses os dois materiais essenciais para Ariádine Menezes, que solta, ou melhor, corta sua imaginação com essa dupla, criando trabalhos que exaltam o prazer feminino. A técnica utilizada pela artista é o Papercutting, também conhecido como Kirie, técnica milenar japonesa para criar desenhos cortando minuciosamente o papel.

A artista de 34 anos descobriu que gostaria de “viver da sua arte” há oito anos, mas sempre trabalhou o lado criativo do cérebro: foi redatora e fotógrafa antes de enxergar a arte para além do hobby. Durante um período que morou na Índia, decidiu ir atrás do que realmente gostava de fazer. A partir das colagens que fazia com suas próprias fotografias, foi pegando gosto pelo corte das imagens e começou a utilizar tesouras cirúrgicas para suas criações, até encontrar o seu verdadeiro amor: o estilete de precisão, ou bisturi para os mais chegados. Foi aí que Ariádine se encontrou, enxergou o leque de possibilidades que tinha nas mãos e resolveu se jogar na carreira.

“Prazer Profundo” é uma obra de 2017 composta por sete camadas de papel.

Não foi fácil se aperfeiçoar na técnica: por não ter muitos adeptos no Brasil, a artista precisou correr atrás de aulas no Youtube, muitas vezes com artistas gringos, para se desenvolver. Com centenas de exercícios, acertos e erros, hoje a artista oferece cursos em espaços como Sesc São Paulo, passando o conhecimento que aprendeu para frente. Aliás, spoiler: vai rolar curso gratuito de Iniciação ao Papercutting no Sesc Guarulhos: de 1 a 29 de junho, sábados às 14h30.

O Guia Maria Firmina conheceu o trabalho de Ariádine na Casa Vulva. A artista estava com algumas obras expostas na Casa, todas elas exibindo corpos femininos em busca de seu auto-prazer. “Descobrir o próprio corpo, se masturbar, saber o que você quer na hora do sexo e não estar submetida a alguém te dar prazer é algo que empodera muito a mulher e a forma que ela se impõe socialmente”, conta a artista no bate-papo que rolou por aqui.

Saca só a conversa que tivemos com a Ariádine, onde falamos sobre seu processo de criação, artistas que ela enxerga como referência e próximos cursos.

A técnica que você usa em seus trabalhos, a papercutting, é uma técnica milenar japonesa. Como você a descobriu?
A técnica surgiu de forma natural! Eu trabalhava com fotografia e muitas vezes fazia colagens com as minhas próprias fotos. Passei a fazer recortes cada vez mais detalhados e utilizava tesouras cirúrgicas até descobrir o estilete de precisão, conhecido também como estilete bisturi. Isso me abriu um leque de possibilidades para trabalhar o ofício do recorte, porque descobri que eu gosto mesmo do ato de recortar, de vazar o papel, e nisso fui largando a cola.

Assim que comecei a me aprofundar e estudar, descobri que na verdade me interessei por uma técnica milenar chamada Kirie no Japão, e fui aprendendo por Youtube, muitas aulas da gringa, na base da tentativa e erro para me desenvolver cada vez mais.

“Pode por a mão aí sim III” (2017)

Como é o seu processo de criação? Quanto tempo leva, em media, pra vc criar uma obra?
Eu uso uma folha pra esboçar e grudo essa folha na folha que será a arte final. Normalmente eu corto duas camadas de papel, aí tiro fora o esboço e deixo a arte final.

Eu levo bastante tempo, geralmente uma obra do tamanho de uma A3 (30×42 cm) é feita em 25 horas. Mas depende muito do detalhamento do trabalho também. Eu não costumo fazer tudo de uma vez só: trabalho de três a quatro horas, paro um pouquinho, depois mais três, e assim vai.

Quais são as suas referencias de mulheres artistas?
A Hilma af Klint é uma das primeiras artistas a trabalhar com o abstrato, o etéreo, as sensações na arte, então é uma mulher que admiro bastante. Tem também a Marina Abramovic, que apesar de não ter nada a ver com o que eu faço, é uma pessoa que me inspira no sentido de questionar o que é arte, o que é a presença e o quão terapêutico e meditativo pode ser o trabalho artístico. Por fim a Lady Guedes, artista de rua brasileira que eu admiro demais, que traz as mulheres como protagonistas em seus trabalhos. A estética e os traços dela me inspiram muito.

O que te levou a retratar em seus trabalhos o corpo feminino e o sexo? Já enfrentou alguma represália?
Meu trabalho fala muito sobre o protagonismo das mulheres no sexo, acho que dentre todas as discussões feministas que existem hoje em dia, o auto-prazer é algo que precisa ser discutido. Eu acho que ele consegue criar um feminismo que parte de nós mesmas, não um feminismo que age a partir somente da sociedade e do outro. Um feminismo que parte do reconhecimento do próprio corpo. Sinto que o machismo está muito relacionado com o poder que a mulher tem diante de sua sexualidade, por ser alguém que pode gerar outra vida se ela quiser.

Descobrir o próprio corpo, se masturbar, saber o que você quer na hora do sexo e não estar submetida a alguém te dar prazer é algo que empodera muito a mulher e a forma que ela se impõe socialmente. O que eu quero passar é esse protagonismo sexual feminino sem a necessidade de um homem. Pode envolver um homem mas não existe a necessidade dele para alcançar o prazer.

Já recebi alguns comentários de haters e em alguns lugares foram vetadas algumas obras por conta do conteúdo. Fui chamada para participar de um programa de TV e, por conta horário, só pude levar as obras que não tinham o sexo como tema. Tirando isso, acho que nunca tive nenhuma represália mais séria.