A arte sem pudor de Cacao Sousa

Uma mulher tímida, uma artista exposta, uma personagem que é a própria artista. Assim os traços  da personagem e da mulher que dá vida a tudo isso toma forma na arte erótica de Cacao Sousa.

Os desenhos da artista, sempre marcados pelos tons avermelhados, buscam retratar o protagonismo da mulher na livre expressão da sua sexualidade e prazer. Cacao empresta o seu corpo a mulher representada em todos os desenhos, e quase sempre expressa por meio dela os seus desejos, fantasias e vivências. Desenhar o próprio corpo desempenhou um papel de aceitação e cultivo do amor próprio na vida da artista. “Como todas as mulheres, me questionava se eu era desejável, se o que fazia era sexualmente atrativo. Ter vergonha do meu corpo, de assumir que eu tenho uma sexualidade aflorada mudou muito por conta dos desenhos”.

Muitos homem já acharam que os desenhos eram um convite para sexo

Nossos corpos vêm sendo expostos para o deleite e satisfação masculina há muitos e muitos anos. Por outro lado, a sexualidade da mulher foi reprimida ao ponto de ser quase totalmente sufocada, e até hoje é um tabu. Na arte erótica esta história se repetiu, até a mulher ocupar este espaço e mostrar que não, não estamos aqui passivamente, nós também temos desejo (e não é pouco), e queremos sentir prazer.

Uma das maiores inspirações de Cacao Sousa neste movimento pró prazer feminino é a diretora de filmes pornôs feministas, Erika Lust – para quem ainda não conhece o trabalho dela, fica aí a dica. A diretora tem um site no qual une relatos anônimo e/ou contos a ilustrações de diversos artistas, e Cacao é uma das colaboradoras do site. A junção de seus desenhos a histórias é uma combinação bastante prazerosa.

Apesar do erótico ser o seu maior tesão, a artistas já experimentou outras formar de expressar a sua arte. Algumas de suas obras que retratam a cultura brasileira, com um ar de sensualidade, é claro, foram adquiridas pelo Museu de Arte Popular de Diadema.

Em entrevista ao Guia Maria Firmina, Cacao Sousa, uma das poucas representantes da arte erótica feita por mulheres no Brasil, mostra muito mais que as curvas do seu corpo: fala de inseguranças, medos, conquistas, desejos e muito prazer!

Desde quando você pinta?
Desde o colégio, na adolescência os meus desenhos sempre tinha um pinto ou uma vagina escondido (risos). Então, foi meio que natural seguir por esse caminho e ir para o mais explícito quando fui amadurecendo.

De onde vem esse interesse pelo erótico?
A minha descoberta sexual foi bem precoce, meu pai tinha muita revista erótica e quadrinhos pornôs, inclusive a minha maior referencia vem de um deles, do Guido Crepax. Apesar de hoje achar ele super machista e ter conseguido ver os defeitos dele, a estética e os traços me fascinam. Acho que essa fonte estranha e curiosa que me traz sensações acabou despertando minha curiosidade.

O que te inspira?
Vivências minhas, principalmente, e fantasias. Pouquíssimos desenhos são feitos a partir do que pessoas relatam para mim, a grande maioria é aquilo que eu estou vivendo no momento ou gostaria de estar vivendo. Busco muita referencia no pornô, é claro que eu preciso garimpar bastante para encontrar um que me dê alguma sensação.

 

Por que você retrata sempre a si mesma nos desenhos?
Todas nos desenhos sou eu. Foi um grande trabalho de autoestima trabalhar dessa forma. A ideia é a mulher ser o centro da atenção, é retratar a sexualidade feminina. A gente tem uma dificuldade enorme de achar alguma coisa em que o centro é a mulher. Dentro do pornô, então, nem se fala. E falar da minha sexualidade foi um trabalho bem legal para mim. E eu vi também que estava ajudando outras pessoas, muitas já me escreveram contando as histórias delas. Elas me procuram para falar como o desenho trouxe alguma coisa para elas, que elas se identificam. E é muito legal saber que muita gente que me segue consegue enxergar isso pelas próprias vivências, esse é o melhor retorno que eu posso ter.

As pessoas têm dificuldade em separar a naturalidade do nu da conotação pornográfica ruim, muitos entendem que a pornografia só deve ser consumida de forma escondida

Como os desenhos de ajudaram a trabalhar a sua autoestima?
Melhorou bastante, mas ainda tem muita coisa para melhorar. Foi muito importante, muito… Me aceitar e aceitar que o meu desejo é natural, que eu não sou uma ninfomaníaca ou que meus lábios são caídos porque eu dei demais, e essas coisas que a gente escuta.

E também piorou um pouco, porque as pessoas acham que eu sou tudo aquilo que ta no desenho. Eu também tenho travas, também tenho medos e eu não mostro a minha insegurança no desenho, ainda tem muitas questões para serem trabalhadas.

Por que retratar somente você e não vários outras mulheres?
Foi uma decisão, o trabalho de autoestima me levou a isso. Eu acho que quando a gente fala da gente temos propriedade. E de uma certa maneira as pessoas acabam se identificando mesmo não enxergando características físicas iguais, porque eu acho que estou falando coisas que muita gente sente.

Como você se autorretrata, é difícil separar a artista da personagem dos seus desenhos?
Foi e é bem difícil, eu estou aprendendo a lidar com os meus limites e tenho aprendido a fazer essa separação agora, até mesmo para saber me posicionar com os outros.

Como as pessoas, principalmente os homens, lidam com os seus desenhos?
Eu já fui mal interpretada muitas vezes, muitos homem já acharam que os desenhos eram um convite para sexo. Sem contar a quantidade de homens do mundo todo que me enviam fotos dos seus pênis. Eu acho isso super agressivo, eu não pedi, esse é o meu trabalho.

Muitas das minhas seguidoras chegaram a ter problemas por conta de homens que as encontravam nas minhas redes sociais e depois tentavam entrar em contato com elas e enviavam fotos nus. Isso me incomodou demais e me deixou muito chateada porque eu faço a minha arte para as mulheres, homens podem me seguir, gostar do meu trabalho, mas eu faço isso para elas.

Pouquíssimos desenhos são feitos a partir do que pessoas relatam para mim, a grande maioria é aquilo que estou vivendo no momento ou gostaria de estar vivendo

Por que você acha que o nu choca?
Eu acho que as pessoas têm dificuldade de separar a naturalidade do nu da conotação pornográfica ruim, muitos entendem que a pornografia é ruim e só deve ser consumida de forma escondida. Algumas pessoas dizem se sentirem agredidas pelos meus desenhos, e tive que aprender a lidar com isso também. Hoje consigo entender que elas se sentem chocadas por pudor, dificuldade de aceitar o próprio corpo… São muito anos de repressão sexual, principalmente para a mulher.

 Como é expor arte erótica nas Redes Sociais?
A minha página no Facebook está fora do ar há pouco mais de um mês, e não tem como recuperar, já tentei falar com eles mas não tive nenhuma resposta. No Instagram eu já tive quatro contas deletadas, a primeira estava com mais de sete mil seguidores, e eu nunca mais recuperei. Hoje eu tenho quase cinco mil.

Você se encontrou na arte?
Sim, nunca me senti tão bem com meu trabalho artístico. Quero continuar explorando isso, fazer em outros formatos, queria fazer em proporções maiores.