A arte punk feminista de Camila Rosa

Mulheres de cores e corpos diferentes, com punhos em riste e expressões faciais que encaram o espectador sem risadinha. Com todos os problemas estruturais – machismo, racismo, LGBTfobia, desigualdades sociais e especismo – não temos muito motivos para sorrir, né? É essa a essência da arte punk de Camila Rosa, ilustradora de Joinville que começou sua carreira de sucesso em Nova York e, anos depois, já fez trampos para o Spotify, Boticário, Nike, e Adidas.

Apesar dos trabalhos para marcas gigantes, a arte de Camila Rosa é muito mais punk, das ruas e da contracultura. Feminista, vegana e apaixonada pelo movimento punk desde a adolescência, a artista retrata em suas ilustrações mulheres latino-americanas, fora dos padrões de beleza e com expressões decididas, de mulheres que querem empoderar umas as outras.

A designer só pôde se dedicar inteiramente a sua arte quando mudou para Nova York. “Foi ali que consegui colocar minhas angústias e reflexões sobre o mundo nas minhas ilustrações, tive tempo para fazer tudo isso”, relembra. Com uma tia professora de artes, a ilustradora sempre teve contato com a área, mas o envolvimento de enxergar na arte um meio de expressão veio em 2010, quando criou ao lado de três amigas o Coletivo Chá, grupo de arte urbana que colava lambe-lambe pela cidade.

De volta ao Brasil, hoje Camila Rosa está em São Paulo e dedica-se a pensar em novos suportes para seus trabalhos, pensando em experimentações e novas possibilidades para dar vida aos seus manifestos em forma de ilustração. Na conversa que tivemos com a artista, descobrimos seus projetos futuros, bem como suas referências e seu processo de criação:

Cartaz que Camila fez para o concurso da ONG Amplifier Foundation
Cartaz que Camila fez para o concurso da ONG Amplifier Foundation

Quando começou o seu interesse pela arte?
O meu interesse existe desde a infância, eu sempre gostei muito, tive a influência de uma tia que era professora de artes e tal, mas o meu verdadeiro envolvimento foi quando eu comecei a participar de um coletivo de arte urbana com mais três amigas em 2010. Foi ali que eu comecei a, de fato, considerar a arte como algo importante na minha vida.

Ouvindo sobre a sua trajetória no Outras Mamas, vi que sua carreira começou de fato fora do Brasil. Você acredita que, caso tivesse começado aqui, seus trabalhos seriam menos políticos?
A minha carreira começou a deslanchar mesmo quando eu fui pra Nova York, por conta das oportunidades e do tempo que eu tive para me dedicar exclusivamente a ilustração e a arte no geral. Apesar disso, acho que não teve influência do local com os temas políticos, porque eu sempre tive esse interesse por arte política comigo, vindo do meio punk rock, então sempre foi algo que eu vivenciei. Na verdade ter ido pra fora me ajudou a colocar isso no meu trabalho, mas esses interesses e pautas sempre foram minhas, então sempre foi algo natural, sabe? Foi um encontro: ter tempo para me dedicar e, a partir disso, conseguir colocar minhas angústias e minhas reflexões sobre o mundo nas minhas ilustrações.

Para além disso, mudei na mesma época em que o Trump ganhou, então se teve alguma influência foi por perceber a movimentação política na arte lá. Isso ajudou a consolidar a minha arte ao ver aquela urgência ali, acontecendo na minha frente. Não sobre os temas especificamente, mas ver os artistas colocando as coisas em pauta e falando sobre, discutindo, debatendo etc., me deu um gás, sabe? E agora com o Bolsonaro ganhando aqui foi como viver isso pela segunda vez. Na época eu até lembro de ver as pessoas abaladas pelo Trump ter ganhado, eu entendia mas não tinha a dimensão porque não era o meu país, sabe? É diferente. Agora quando aconteceu aqui eu entendi que “puta, foi isso que eles sentiram, foi isso que levou o pessoal a falar”.

Qual foi o trabalho que fez que mais gostou ou que foi mais marcante pra você? Por que?
É muito difícil escolher um trabalho, acho que tenho trabalhos muito significativos, mas um que de fato mudou a minha carreira foram três ilustrações que fiz para a Refinery29, um portal de Nova York que é dedicado às mulheres. Foi a primeira grande mídia que me deu oportunidade, e isso me deu uma segurança absurda para continuar a fazer o que eu estava fazendo e confiar mais no meu trabalho. Com certeza absoluta foi um divisor de águas.

Camila considera esse trabalho para o portal feminino Refinery29 um divisor de águas de sua carreira

Depois dele tem trabalhos que eu gosto muito, que foram muito importantes, tipo o da Amplifier Foundation, um cartaz que eu fiz para um concurso que eles abriram para a Women’s march. O cartaz não foi escolhido, mas depois ele integrou uma exposição itinerante que rolou por vários lugares dos Estados Unidos e isso pra mim foi muito marcante, nossa, foi realmente muito importante.

Por último, foi ter feito o livro Rebel Girl, porque já era um livro que eu achava interessante e queria fazer. Quando me chamaram, eu fiquei tipo “nossa, você é capaz, as pessoas realmente gostam do seu trabalho e você sta sendo chamada pra fazer coisas que você sempre quis fazer”.

Como é o seu processo de criação? Consegue explicar um pouquinho sobre a escolha dos temas tratados no seu trabalho?
Cara, é algo muito natural. Às vezes as ideias vêm de músicas que estou ouvindo, ou de algo que estou lendo, ou uma influência de algo que eu vi na internet, achei interessante e quero dar a minha visão sobre aquilo. Normalmente o processo é partir de uma ideia para criar, às vezes vou atrás de referências que eu tenho guardado, estilo, cores, etc., mas basicamente meu processo é sentar na frente do computador, rascunhar algo, jogar pro Illustrator e finalizar, dar as cores finais e tudo o mais. Quando não tenho nenhuma ideia é que eu vou pra internet procurar coisas e referências para me inspirar, mas quase sempre é algo bem natural e intuitivo.

Olhando os seus trabalhos, percebemos uma forte presença de mulheres, sempre fortes, sem sorriso e que levantam bandeiras de feminismo, racismo, especismo e veganismo. São temas que você aborda para fazer as pessoas refletirem ou são temas que você trabalha porque passam por suas subjetividades?
Na verdade são as duas coisas. Eu abordo porque são coisas que dizem respeito a minha vida, a minha vivência, mas também porque acredito que são coisas que as pessoas precisam ouvir, assuntos que considero importantes pra mim. Mas acho que é muito mais sobre algo pessoal… Quero falar sobre isso porque mudou minha vida, porque são questões que precisam ser faladas e que até então não eram muito discutidas no mundo da ilustração.

Quais são suas referências de mulheres artistas? Conhece alguma artista no Brasil que também fale em seus trabalhos sobre o veganismo?
Cara, tem muitas artistas que eu admiro! Na verdade, acho que a maioria delas são mulheres. Gosta das artistas clássicas, que fizeram um trabalho interessante, mas hoje admiro artistas contemporâneas a mim, pessoas que estão ao meu lado, também ilustrando e fazendo trabalhos legais. Malika Favre, Loveis Wise, que é uma amiga pessoal que fiz nos Estados Unidos, Ashley Lukashevsky, outra mulher que tive a oportunidade de conhecer e que tem um trabalho político incrível. Aqui no Brasil tem o Coletivo Chá, que foi o grupo de arte urbana que participei lá em 2010, composto por cinco mulheres incríveis que mandam muito bem nos trabalhos. Artistas ligadas ao veganismo eu não conheço, mas com certeza deve ter, eu é que não sei mesmo.

Tem algum projeto no qual esteja trabalhando e que possa nos falar? Alguma exposição, livro etc.
No momento eu estou trabalhando em um livro infantil no qual eu vou ilustrar um homem! Um projeto muito legal porque é um trabalho que começou com uma série de livros sobre mulheres e agora a autora quer começar a falar sobre homens também, e eu fui chamada para ilustrar a história de um homem brasileiro. Acredito que o livro saia no meio de 2020, então eu vou passar esse ano todo trabalhando nele.

Desde março de 2018 eu estou trabalhando direto, praticamente sem respirar, e agora em abril eu consegui terminar vários projetos, um deles foi o trabalho que fiz para o Lollapalooza em parceria com a Adidas. Depois de toda essa correria eu quero ir com calma, parar para criar coisas novas, tentar outras plataformas e suportes para a minha arte. Quero tirar um tempo para conseguir desenvolver essas experimentações.

Camila ao lado de um banner de sua autoria em Nova York
Camila só conseguiu se dedicar integralmente à ilustração quando mudou para Nova York. Nesse período a artista encontrou seu estilo e seu espaço na ilustração