Mulheres no futebol: do circo à melhor do mundo

Faltam menos de 24 horas para o início da 8ª Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA, mas para a equipe brasileira, essa partida já começou faz tempo.

O futebol feminino nasceu de uma forma totalmente diferente do futebol masculino. Não foi simplesmente assim: “e faz-se o futebol e ele se dividiu em duas modalidades”, é claro que não, a mulherada teve que lutar também pelo direito de bater uma bolinha.

A história do futebol de mulheres passa por proibições, muito preconceito e até espetáculos circenses! Isso mesmo, mulheres artistas também já vestiram essa suada camisa. O primeiro jogo de futebol no Brasil aconteceu em 15 de abril de 1895, no início, o esporte era praticado apenas por pessoas da elite, negros não participavam e muito menos mulheres. Nas décadas de 1920/30 a modalidade masculina se tornou muito popular.

Nesta época o circo também era muito popular e costumava ironizar no picadeiro questões que estavam em alta na sociedade e, provavelmente, foi assim que surgiu o número “Futebol Feminino”, encenado pelas atrizes que compunham a família circense. “A gente sabe ainda muito pouco sobre como de fato eram essas apresentações no circo. Mas, sabemos que artistas tem outro relacionamento com o seu corpo, com a exposição dele, e isso de alguma forma propiciava com que experiências como essa fossem exercidas naquele ambiente. Na época, uma mulher jogando bola era algo totalmente impensável, exótico, diferente e o circo acaba sendo o ambiente para isso acontecer”, conta a pesquisadora Aira Bonfim.

Foto: Mônica Saraiva, imagem da exposição Contra-Ataca

Na década de 1960, outras artistas entraram em campo, literalmente, as atrizes do teatro de revista, as Vedetes, faziam partidas pontuais, geralmente beneficentes que foram capazes de lotar estádios pelo Brasil todo em plena segunda-feira.  Segundo Aira, o jogo de vedetes também eram performances, basicamente sem técnica alguma, mas era também uma forma de resistência ao decreto lei assinado por Getúlio Vargas  em 1941 que dizia  “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Essa proibição só deixou de existir após muita luta e resistência em 1979, e é claro que anos de preconceito, marginalidade e proibição deixaram um legado negativo. Mesmo assim, é inquestionável a capacidade e a garra das mulheres que participaram e participam dessa história. E para contar essa trajetória da maneira que ela merece, o Museu do Futebol convida a todos para visitar a exposição “CONTRA-ATAQUE! As Mulheres do Futebol”. Aira, também curadora da mostra, conta um pouquinho mais sobre a exposição para a gente:

Como surgiu a ideia de fazer essa exposição?
A exposição surgiu do empenho do Museu do Futebol em trazer a história da modalidade para um público muito maior, a primeira iniciativa do tipo  aconteceu em 2015, com o projeto “Visibilidade para o futebol feminino”. Em 2019 já estamos em um outro momento, não estamos mais pedindo visibilidade. Agora queremos fazer um golaço!

O que vamos ver na exposição?
Essa exposição traz o futebol feminino, a seleção brasileira, mas é também é uma homenagem às mulheres que participam desse futebol.  Então, tem torcedoras, árbitras, treinadoras, tem o universo das várzeas, das peladas do fim de semana…É Uma homenagem a todos esses “futebóis”, mas, também, a todas essas iniciativas e essa história que vem desde o século XX e vai até a geração de meninas que já estão tomando esse espaço, jogando e ganhando os campeonatos. Recontando uma história que a gente estava perdendo em campo, e agora já é um contra-ataque possível, em que não dá mais para voltar atrás e ser como era antes.

O que foi o “Visibilidade para o futebol feminino”?
Foi um projeto muito importante também porque não foi uma exposição temporária, foi uma reparação nas salas permanentes do Museu, a ideia não era construir uma exposição e depois desmontar, mas sim olhar para o Museu do Futebol e ver a suas lacunas em relação a participação das mulheres nesse esporte, e tentar minimamente desconstruir e reparar isso.

A seleção brasileira já conquistou tantos prêmios e temos a melhor jogadora do mundo eleita por seis vezes, porque só agora passamos a notar a seleção feminina?
Não sei se de fato a gente passou anotar a seleção feminina, existe já faz algum tempo um público que acompanha essa modalidade, mas ele esbarrou em algumas dificuldades como, por exemplo, a falta de transmissão dos jogos, divulgação de notícias sobre a modalidade. Ao mesmo tempo, acredito que toda está onda feminista acabou olhando para essa modalidade e entendeu que ela também acabou sendo colocada à margem, e reflete a desigualdade entre homens e mulheres assim como no trabalho e nos outros esportes.

Imagem: Divulgação/CBF

Quem tem medo de meninas que jogam bola?
O privilégio tem, a misoginia tem, acho que as vezes o senso comum entende o futebol feminino como espaço de disputa pelo mesmo espaço que o futebol masculino ocupa, e não é.  Ninguém deixa de gostar de um esporte para querer consumir outro, são campos completamente diferentes e que não estão em competição, pelo contrário. Acho que quem tem medo é quem quer ficar no mesmo lugar.

Qual a importância dessa exposição ocupar o Museu do Futebol, onde obviamente essa história já deveria ser contada?
Por tanto tempo a gente naturalizou o time masculino vestindo a camisa amarela e dizendo que somos o país do futebol, mas ao mesmo tempo negligenciou todo o esforço da construção de uma modalidade, de um calendário esportivo que fosse mais amplo. A Gente naturalizou que meninas não tenham futebol na escola, que é normal entrar em lojas de esporte e não ter uma camiseta do nosso time para vestir.

Mas estamos caminhando, já conquistamos várias coisas, estamos constituindo um mercado nacional e a modalidade de uma forma muito própria, com a sua própria história, e ainda, de quebra, com a melhor jogadora do mundo, eleita por seis vezes. Além dela, temos diversas referências, várias heroínas, e é a hora da Formiga e da Cristiane terem o seu protagonismo visibilizado, para que isso abra o caminho para outras meninas que, pelo menos, tenham a escolha de pensar no futebol como uma opção.

2019 já é um marco na história do futebol de mulheres?
Essa copa já vai ser muito diferente, já tem um público muito maior torcendo por elas, a transmissão em TV aberta que é um dado muito significante, pode ser a primeira vez da Globo, mas não é a primeira vez que acontece, a Band já transmitiu muitos jogos da modalidade. Mas a gente entende que a maior televisão do país vai transmitir, isso pode sim ser fruto de muita transformação.

O que? Exposição CONTRA-ATAQUE! As Mulheres do Futebol
Quando? 28/05 a 20/10/2019|  Terça a domingo, 9h às 17h (visitação até as 18h)
Onde? Museu do Futebol| Praça Charles Miller, s/nº São Paulo, SP
Quanto? R$ 15 | Meia-entrada: R$ 7,50 | Entrada gratuita às terças-feiras