Hilda Hilst: a autora que muitos conhecem mas poucos leem

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
Árias Pequenas. Para Bandolim

No dia 21 de abril de 1930, em Jaú, interior de São Paulo, nascia Hilda Hilst. Considerada por muitos críticos literários uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20 e responsável por revolucionar a literatura brasileira, por conta dos limites entre a poesia lírica, dramaturgia e a prosa narrativa serem quase inexistentes em sua obra.

Hilda publicou o seu primeiro livro, Presságio, em 1950. Em cerca de cinquenta nos de carreira, publicou mais de vinte obras de poesia, alguns livros de ficção e oito peças de teatros. Se aventurou também pelo crônicas publicadas em jornais e o mundo das artes plásticas, desenhando quando não conseguia se expressar em palavras, alguns desses desenhos ilustram as suas obras.

Nunca faltaram críticos tecendo elogios ao seu trabalho, entretanto a autora sempre foi muito falada mas lida por poucos. E ela queria ser lida, essa busca por reconhecimento a levou a escrever contos eróticos, o primeiro foi O caderno rosa de Lori Lamby, que gerou muita polêmica na época e fez com que muitos críticos a virassem as costas.

Hilst foi uma mulher totalmente comprometida com o seu trabalho, em meio a agitada vida social em São Paulo, optou pelo isolamento e a companhia de muitos cães que recolhia nas ruas, na Casa do Sol, chácara onde viveu desde 1966 até a sua morte, localizada em Campinas. Lá, produziu cerca de 80% da sua obra.

A poesia tem a ver com tudo o que não entendo. Tem a ver com a solenidade diante do mundo (…) Tem tudo a ver com esse fio terra que eu quero contatar, uma ligação da vida com a intensidade
Hilda em entrevista ao Jornal do Brasil em 1989

O amor, o sagrado e a morte estiveram presentes em muito poemas e prosas da autora. O encontro com a morte se tornou tão frequente em seus poemas que Hilda chegou a referir-se a ela com apelidos carinhosos. Hilda também tinha fascinação pelo mundo dos mortos, acreditava fervorosamente no Fenômeno da Voz Eletrônica – teoria que acredita ser possível captar vozes do além por meio de aparelhos sonoros. A poeta passava longas horas analisando as gravações de rádio que fazia em busca de provas para sua teoria, que ela diz ter encontrado. Foi julgada como louca por conta disso.

Por que não me esqueces
Por que não me esqueces
Velhíssima-Pequenina?
Nas escadas, nas quinas
Trancada nos lacres
No ocre das urnas
Por que não me esqueces
Menina-Morte?
[…]
E por que soberba
Se te procuro
Te fechas?

Hilda teve o seu encontro final e verdadeiro com a morte no dia 4 de fevereiro de 2004, aos 73 anos, de falência múltipla dos Órgãos. Entre os prêmios que recebeu estão o Grande Prêmio da Crítica pelo Conjunto da Obra da Associação Paulista de Críticos da Arte, em 1962, e o Jabuti por Rúlito Nada, em 2002. Este ano a autora será homenageada na Feira literária de Paraty, uma das mais importantes do país, sendo a segunda mulher a receber este título desde que a Feira foi criada, em 2003.