Os movimentos precisos de Thamiris Prata

O balé é a arte do movimento, de contar uma história, expressar sentimentos e emocionar sem o uso de uma única palavra. Pode ser com movimentos rápidos ou lentos, mas sempre muito precisos.

A dança é uma das expressões artísticas mais antigas, e mais do que qualquer outra arte, reflete o compasso de cada fase da evolução humana, cada uma em um ritmo. Na pré-história era uma espécie de ritual de caça, dançava-se sobrevivência, séculos depois esteve presente em rituais sagrados. Na Grécia antiga ajudava nas lutas e na conquista da perfeição do corpo, já na Idade Média se tornou profana por utilizar o corpo como forma de expressão. Ressurgiu no renascimento e mais especificamente no Romantismo o balé passou a narrar o mundo com passos elaborados e harmônicos.

Ser bailarina talvez tenha sido o sonho de inúmeras meninas, muito por conta da divisão que coloca meninas na caixinha do balé e meninos na do futebol, o que tornou esta arte um tanto cruel com o meninos também.  Apesar de parecer algo quase que natural, a dança exige muita dedicação e a necessidade de vencer diversos obstáculos para se tornar uma profissional. Apesar de não sermos um país de tradição no balé, tivemos grandes bailarinas que brilharam aqui e no mundo, por exemplo:  Ana Botafogo, Cecília Kerche , Deborah Colker Márcia Haydée Toshie Kobayashi.

Nesta semana, o papo é com a bailarina Thamiris Prata, solista da São Paulo Cia de Dança, companhia que pertence e representa o Governo do Estado de São Paulo – inclusive dirigida pela também bailarina, documentarista e escritora Inês Bogéa.

Thamiris está na companhia há 11 anos, e já dançou um dos balés mais complexos e reconhecido com um marco na vida da protagonista, ‘O Lago do Cisnes’.

Foto: Arthur Wolkovier| O Lago dos Cisnes – São Paulo Cia de Dança| Direção: Inês Bogéa

Como foi o seu primeiro contato com a dança?
Foi em cima dos pés do meu pai quando ele me pegava para dançar junto e eu via minha mãe dançando com ele sempre. No balé, comecei aos 7 anos porque minha mãe me colocou. Eu gostava desde o início.

Quando você descobriu que queria ser uma bailarina?
Aos 10 anos quando entrei para o corpo de baile infantil da escola de bailados Municipal de Santos. Eu não sabia com essa idade que eu podia dançar profissionalmente, eu simplesmente queria dançar.

Como é, para você, contar uma história usando apenas o movimento do seu corpo?
É desafiador e um aprendizado constante. Por isso é importante termos contato com quem já dançou certas obras, com ensaiadores que viveram os personagens e conseguem transmitir essa experiência, para que possamos nos inspirar e buscar em nós a nossa própria interpretação, o nosso entendimento corporal.

Quanto tempo em média dura a preparação para um espetáculo novo?
Quando é  uma remontagem as vezes fazemos em duas ou três semanas. Quando é uma coreografia feita para a cia varia de um mês a um mês e meio, depende do tempo da obra, do coreógrafo, da complexidade da coreografia.

Investir na arte é se interessar pelo desenvolvimento do país. Cultura é educação

Como é o processo criativo de uma bailarina, vocês têm liberdade para criar? 
Existem coreógrafos que dão uma base e pedem para os bailarinos criarem ou acrescentarem alguma coisa em cima da proposta pedida. Já outros tem os movimentos decididos e nós  trabalhamos para alcançar o que o coreógrafo deseja.

A SP Companhia de Dança é uma companhia com investimento do governo estadual. Para você qual é a importância do investimento público em cultura?
A dança une música, artes cênicas e lida com emoções que é essencial para o ser humano que está cada vez mais materialista. No meio de tantas incertezas em que vivemos, investir na arte é se interessar pelo desenvolvimento do país. Cultura é educação. Além de formar o ser humano, gera empregos, movimenta a economia.

A SP cia de dança faz montagens tanto do balé clássico quanto de balé contemporâneo, como é transitar esses dois estilos?
É complicado fisicamente. O Balé clássico deixa a musculatura alongada, sinto na hora minha coluna mais rígida, os braços suaves, o corpo pra cima. E fazer a transferência para o contemporâneo que é mais natural, pesado, circular, exige muita consciência corporal. Os ensaios ajudam a fixar no corpo essa memória para que eu possa acessar rapidamente quando tenho que fazer os dois estilos no mesmo dia. Eu amo poder sentir no meu corpo diversas formas de dançar e diferentes emoções que cada estilo proporciona. É desafiador e enriquece.

 

Foto: Michelle Molina| Peekaboo – São Paulo Cia de Dança| Direção: Inês Bogéa

O Lago dos Cines é uma dança que exige muito da protagonista, você acha que dançar este balé foi o auge da sua carreira?
Acho que eu nunca vou achar que estou no meu auge até começar a cair!  Realmente, dançar ‘O Lago dos Cisnes’ exigiu muito de mim, bailarinas do mundo todo dizem que é o balé mais difícil para a bailarina, tanto tecnicamente quando artisticamente. Mas cada balé é um desafio, se eu tiver que dançar ‘A Bela Adormecida’ ou ‘Giselle’ será com a mesma dedicação, talvez calejada por ter dançado algo tão difícil antes, sim, mas não no sentido que ficará “mais fácil”.

Foto: Arthur Wolkovier| O Lago dos Cisnes – São Paulo Cia de Dança| Direção: Inês Bogéa

Você acha que, atualmente, ser bailarina profissional é uma carreira mais acessível no país?
Melhorou, mas não é o ideal, comparado a outros países estamos longe no aspecto de formação, estrutura, valorização e investimento na área. Apesar de termos muitos bailarinos, também temos muitos que estão sem emprego por falta de mercado de trabalho. E, ainda, para muitas pessoas a dança não é vista como profissão.

Quais são as mulheres artistas que te inspiram?
Márcia Haydée, uma grande estrela da Dança brasileira que pude trabalhar e assim, conhecer o seu lado sensível e humano.

Qual mensagem você deixaria para bailarinas que estão iniciando a carreira?
Olhe para o outro com admiração e perceba as qualidades deles; olhe para as suas dificuldades e continue, persista. Tudo tem seu tempo, a sua técnica, o seu lado artístico e também seu reconhecimento. Busque suas conquistas com seriedade, respeito e humildade. Lembre-se: o importante não é chegar lá e sim como você chegou.

Foto de destaque: Arthur Wolkovier| O Lago dos Cisnes – São Paulo Cia de Dança| Direção: Inês Bogéa