Preta Ilustra: onde estão as pretas?

Por Martina Ceci*

Esse foi e, ainda é, o questionamento de Vanessa Ferreira, publicitária, designer, diretora de arte, mulher preta e idealizadora do Preta Ilustra uma plataforma gratuita que liga as mulheres negras a arte, colocando as mulheres no centro de suas próprias histórias.

Vanessa Ferreira

O ‘Preta’ vem da necessidade de levar sua ancestralidade e resgatar histórias. ‘Ilustra’ é uma personagem criada para interagir com os seguidores do perfil no Instagram, criado por Vanessa há dois anos, que ganhava forma de acordo com as essas interações e descobertas no mundo.

Desde criança, Vanessa preferia ficar sozinha, diferente das outras crianças. Criada em um barraco na Vila Guarani, periferia de São Paulo. Vanessa é a terceira filha de uma mulher negra, pobre e mãe solo. “Sempre acompanhei de perto a luta da minha mãe e as consequências emocionais para quem é mãe solo, e o meu primeiro exemplo na vida foi olhar tudo aquilo e saber que era algo que eu não queria pra mim”, conta. Em 2006, entrou na Belas Artes, com bolsa de 100% pelo Prouni e ‘ter que escolher pagar a condução para ir pra faculdade ou ir andando e usar o dinheiro pra comer alguma coisa’, é a lembrança que ficou.

Aqui estamos. Mulheres e pretas! Protagonistas de histórias que antes, ninguém queria contar, nem saber.

Como surgiu o Preta Ilustra?
Foi uma necessidade de retomar os meus laços com a vida, me religar com o mundo. Há dois anos eu estava num emprego que, a única coisa que faziam lá era gritar e mostrar o quanto eu era alguém inútil, também estava vivendo um relacionamento de merda e meu cachorro estava no final da vida…O Preta Ilustra foi aquela ‘última tentativa’, sabe?! Eu tenho uma amiga que acompanhou tudo que estava rolando na época e ela estava começando um negócio com papéis e dobraduras. Ela fez um caderno pra mim, costurado à mão. Me entregou o caderno e disse que queria ver ele completo, cheio de desenho, porque sabia que era daquilo que que gostava e que era o que me faria bem e eu comecei.

Qual foi sua primeira ilustração?
Eu nunca parei de desenhar. Na época da faculdade eu dei uma pausa. Mas depois eu sempre rabiscava alguma coisa ou outra. Na verdade eu tenho a minha favorita que é a da minha véia. Que me fez ver a importância de não se deixar perder as histórias dessas mulheres pretas. Ela era filha de Nanã, me ensinou a tomar café e foi a porta por onde eu entrei na umbanda.

Você mulher preta, ilustra só mulheres pretas… Parte da essência e da necessidade constante da representatividade?
Durante muito tempo eu fui questionada do porque só desenhava mulheres pretas e eu respondia assim ‘vai lá no perfil do desenhista famosinho e pergunta pra ele porque ele não desenha mulheres pretas’. Isso me fez perceber o papel que eu estava ocupando e a ausência de negras desenhando e ilustrando corpos negros e como tudo o que temos sobre os nossos corpos foi desenhado por homens brancos. Isso me fez ir além e buscar me ligar a artistas que protagonizavam a arte negra.
Mas foi algo muito natural pra mim, existe uma Vanessa por trás do Preta Ilustra: a Vanessa é mulher preta, periférica e tem seu posicionamento. A representatividade vai além do que eu falo, ela vem comigo na minha luta diária, nos espaços que eu frequento, nos temas que eu abordo, nas minhas conversas, nas pessoas que eu apoio. Mas existe um preço a se pagar por isso.

E que preço é esse?
Reconhecimento e patrocínio. É algo que não rola para artistas como eu. As grandes marcas de lápis e materiais de arte preferem vincular a sua imagem à artistas que não abordam causas como o racismo, por exemplo.
Eu tive o apoio apenas de uma marca em novembro (2018) para fazer um sorteio com giz cor de pele. É uma empresa que quer mostrar a importância da diversidade de peles em um projeto fantástico, mas por não ser a ‘número 1’ na linha escolar, não consegue tanta visibilidade e acaba sendo conhecida somente pelo nosso nicho.
Aí vc vê muito artista branco, com um único tipo de arte, tendo muito apoio e, quando se fala em mulheres negras só desenha a Taís Araújo. Bolhas! É isso que vende.
Ainda que eu possa ser boa, eu sempre terei que ter ‘mais’ pra que alguém chegue e valide o meu trabalho. Prova disso é eu ter 10 anos no mercado de design e ser reconhecida somente com os 2 anos em ilustração no Preta Ilustra.

Durante muito tempo eu fui questionada do porque só desenhava mulheres pretas e eu respondia assim ‘vai lá no perfil do desenhista famosinho e pergunta pra ele porque ele não desenha mulheres pretas

Como você vê o crescimento do Preta Ilustra, dois anos depois de colocar o perfil no ar?
Naturalmente eu fui produzindo tudo o que me faltava e, isso era a reprodução de mulheres negras. Aí, o Preta Ilustra depois de ir pro ar, caminhou com as próprias pernas. Eu sempre recebo no inbox declarações maravilhosa de pessoas que nunca me viram e que nunca vi na vida, mas que se identificam com tudo o que eu faço.  No Instagram eu faço lives, mostro técnicas… O Preta Ilustra tem alcance alto no nicho que pertence. Eu quero colocar a mulher negra no protagonismo das narrativas. Ao invés da mulher negra ser só uma pauta de estudo, ser quem cria, domina, dita e faz.

Acompanhe o trabalho da artista também no Youtube.

* Martina Ceci é uma jornalista e mogiana que acredita nas pequenas alegrias da vida.