Sapatão nas arte, a busca por representatividade

Gabriella Araújo é uma estudante de psicologia apaixonada por arte. Decepcionada com um grupo de teatro do qual fazia parte, criou o instagram Sapatão nas arte, um perfil com mais de 11 mil seguidores que divulga o trabalho de artistas lésbicas do Brasil inteiro.

Nascida e criada em Niterói, Gabriella é mulher lésbica indígena em contexto urbano que se define como alguém a quem o coração pertence à ancestralidade – principalmente as ligações com sua vó Maísa, nordestina descendente dos Potiguara, povoado indígena da Paraíba. A página Sapatão nas arte surgiu há três anos como uma saída à falta de representatividade de mulheres lésbicas na vida da estudante. Na época, fazia um curso de teatro, mas todos os papéis que pegava eram personagens hiperssexualizadas que só reproduziam papéis binários de gênero.

Gabriella não imaginava que teria esse tipo de vivência em um espaço como o teatro, que se propõe a discutir questões sociais. “Isso me deixou mal e eu acabei me afastando da arte de um modo geral, mas ao mesmo tempo fiquei com a sensação de que precisava de referência: ver mulheres lésbicas na TV, nas ilustrações, no teatro, na dança… Foi no meio dessa frustração que decidi criar a Sapatão nas arte”.

Reunir em um único lugar a diversidade das existências lésbicas: com esse objetivo, Gabriella conseguiu mais de 11 mil seguidores com suas 600 postagens. Mais que conhecer trabalho de artistas lésbicas, o desejo era escancarar a pluralidade dentro desse universo. “Todo o conteúdo que eu via para e sobre mulheres lésbicas era quase um pornô! Mulheres brancas muito femininas, cabelos compridos, parecia que uma imagem feita para homens, sabe? Faltava a diversidade que existe entre nós [lésbicas]. Quem entra no meu instagram vê mulheres pretas, indígenas, periféricas, gordas. Eu tenho um busca ativa por esses corpos, por essa diversidade”. Incrível, né? Batemos um papo com a produtora de conteúdo do instagram Sapatão nas arte, leia abaixo:

O objetivo do projeto é dar visibilidade às artistas lésbicas | Arte: Laís Matias

Você acredita que há uma subrepresentatividade das mulheres lésbicas na arte?
Acho que todos os corpos que se distanciam da norma, seja ela de orientação sexual, raça, peso, etc., são subrepresentados na arte. Eu milito por mulheres lésbicas e bissexuais porque é o contexto no qual me insiro, mas acredito que precisamos de uma movimentação geral para mais representatividade de todos os corpos fora do padrão.

Essa falta de representatividade na arte e na mídia afeta a vida de muitas. Falando da minha experiência pessoal, descobri que eu performava a feminilidade para ser amada e vista, não porque aquilo me representava de fato. Desconstruir isso foi assustador, mas hoje me pareço muito mais com aquilo que acredito, sabe? Acho que a arte tem um papel fundamental para trazer referências de pessoas que se distanciam da normalidade, mostrando que é possível viver e ter uma vida digna. A arte ajuda na construção do inconsciente coletivo, então precisamos mostrar a diversidade dos corpos para construir novos imaginários. É com esse pensamento que eu insisto na página.

Qual a recepção do público com o projeto?
Depois de criar a página, percebi que mesmo quando não postava muita coisa eu ganhava várias seguidoras por semana. Isso me mostrou o quanto esse espaço e essa representatividade eram necessárias, o quanto as pessoas estavam interessadas nisso. Fui investindo a ideia e hoje a página faz parte de mim. A recepção é super positiva! Atualmente eu ganho cerca de mil seguidoras a cada duas semanas mais ou menos, é muito legal.

O que me faz perceber a boa recepção do conteúdo que produzo são as mensagens inbox de mulheres agradecendo a diversidade, falando da importância de não se sentirem a cota dentro do meu perfil. Quando paro e vejo o feed eu fico muito feliz, porque vejo quantas artistas estão produzindo coisas incríveis, e me orgulho de reunir toda essa potência em um único lugar.

Projetos como “Mulheres adultas têm pelos” encontram espaço no instagram que conta com mais de 11 mil seguidoras

Quais são suas referências de artistas lésbicas?
Sou apaixonada pela Bia Ferreira, Luedji Luna, Brisa Flow… São mulheres que eu nunca pude conversar pessoalmente, mas que para mim são incríveis. Mas as que eu tenho como referência mesmo são as que vem conversar comigo, que temos algum tipo de troca, sabe? Aquelas que conheço pessoal ou virtualmente e que me inspiram por sua resistência cotidiana.